quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sobre o livro «A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado» de Gonçalo M. Tavares, Bertrand 2017















Lobos maus e más aranhas.
Este é o caderno 38 e para que a biblioteca esteja organizada devemos situá-lo numa nova sessão: «Mitologias».

A linguagem de Gonçalo M.Tavares é um paradoxo. Em simultâneo, parece identificável, circunscrita a uma sintaxe própria, definida por títulos, tabelas e tumultos característicos e indexados. Por um lado, parece estável mas, em análise sequencial, surge lúdica, desabrida, talvez louca. Sem dúvida, universal e intemporal.

Neste tomo, uma palavra (revolução) sugere um ténue fio de aracnídeo que o liga aos anteriores: «Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai» (Porto Editora, 2014) ou «O Torcicologologista Excelência» (Caminho, 2015). Mas talvez seja ilusão ou exagero ou tolice encontrar por aqui tais ligações.

Estas Mitologias revelam até onde a cultura popular está enraizada em mitos profundamente insolúveis, em medos indecifráveis, nos traumas mais inultrapassáveis, nos defeitos mais repulsivos, nas fobias mais colectivas. Quem tem medo do quarto escuro? Quem mete medo com o homem do saco, o lobo-mau, o mau-olhado, a aranha felpuda a passear nas costas da mão, o pássaro a bicar a nuca, a moura encantada e atirada ao poço, a bruxa-má e o cigano-ladrão, a revolução que vai tirar o sossego, a cabeça desaparecida, o futuro por resolver, o passado sombrio, o presente fechado no quarto escuro?
Será que o povo deve ir ao psicanalista?
Não!
Gregos, Latinos, Etruscos, Egípcios, Ibéricos sempre contaram as suas loucuras. Histórias Amedrontadoras por Explicar. Aracne, Minotauro, Leda, Dafne, Sísifo, Édipo… Alguns as escreveram.
Muitos as leram e acreditaram nelas.

jef, junho 2017

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