terça-feira, 25 de julho de 2017

Sobre o filme «3 Gerações» de Gaby Dellal, 2015


Não basta buscar um tema da moda (e ainda bem que o é!) – a transexualidade na adolescência – para que um filme passe a ser bom.

Não basta colocar actrizes de primeira água em confronto – Elle Fanning (Ray / Ramona), Naomi Watts (a mãe solteira com dúvidas sobre a paternidade do filho / filha), Susan Sarandon (a avó lésbica que não aceita a transexualidade), Linda Emond (a namorada da avó) – para que estas actrizes consigam representar. E bem que elas se esforçam tentando dar corpo a um texto sem uma tirada de jeito.

Não basta fotografar a belíssima luz crepuscular de Nova Iorque e uma casa antiquíssima, de arquitectura maravilhosa, três ou quatro pisos abertos e interligados por escadas, esconsos e janelas promissoras frente à paisagem que lhes está fora, para que uma peça de teatro “em estrado isabelino” tenha crédito.

Não basta opor comédia e tragédia alternadamente, e em modo «fast-comedy», para dar textura ao melodrama. É preciso dar tempo aos olhares, às expressões, às peripécias, aos mal-entendidos para que a narração faça sentido. É preciso dar tempo ao Cinema.

Não basta confundir temas, juntar paradoxos, baralhar assuntos e, no fim, colocar um improbabilíssimo «happy end». Não há ninguém que não conheça os difíceis trâmites subterrâneos da ansiedade familiar. O cinema precisa de fina construção, como a literatura, para que o espectador sinta dele a retórica proposta e aceite a improbabilidade da ficção.

Contudo e por fim, basta a generosa proposta política do tema para um telefilme a ser visto no domingo de uma TV em depressão e admirar os belos rostos das personagens / actrizes por quem é tão fácil apaixonarmo-nos.

jef, julho 2017

«3 Gerações» (3 Generations) de Gaby Dellal. Com Naomi Watts, Elle Fanning, Susan Sarandon, Linda Emond, Tate Donovan e Sam Trammell. EUA, 2015, Cores.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Da consciência e da sua irrelevância














Da consciência e da sua irrelevância.

O caos e a tranquilidade são dois conceitos teóricos, mais palavrosos, menos abstractos, que definem sem definir estados que os humanos têm muita dificuldade em integrar. Animais, plantas, minerais, e o que lhes está pelo meio, praticam-nos plenamente sem necessidade de os distribuir por complexos dicionários.

O caos determina esse estado impossível de explicar em que as partículas e os seus componentes electrónicos se encontram em permanência, de pernas para o ar, cabeças ao vento, ora aqui ora ali, para desespero de matemáticos e astrofísicos, nunca sabendo estes quando e onde os irão agarrar. Dessa incerteza caótica são feitos tanto a pedra dura, como a água mole, como o substrato aéreo.

Por oposição, a tranquilidade, ainda mais teórica e abstracta, apenas existe quando, por momentos, é esquecido o caos das partículas e o da mente dos astrofísicos, tais como o das respectivas famílias, o possível recrudescer da gastrite, essa dor aguda que poderá conter mal maior, a disseminação do terrorismo pelos cantos improváveis do planeta, o encerramento da próxima estação dos correios ou a flutuação do preço da fruta no bairro em tempos de crise permanente. Ou seja, a tranquilidade existe apenas por esquecimento do que a nega. O contraditório e a respectiva sombra da consciência.

Olhando pelo lado de fora, a cegonha que plana no ar treinando as rémiges para que contornem as advecções atmosféricas, sem causas nem caos, quando não busca por alimento, segurança ou descendência, cumpre, efectivamente e inconscientemente, o prazer da tranquilidade. A cegonha apenas é tranquila dentro das órbitas estouvadas dos electrões que circulam pelos átomos das suas rémiges que, em sincronia, a levam à satisfação dessa, convenhamos, ausência de caos.

Ou seja, a consciência feita de caos e tranquilidade em simultâneo, mas também da sua oposição – caso se determine que uma e a outra palavra são antónimos, um facto pouco provável! –, torna tudo metafisicamente muito mais complicado para a gastrite do astrofísico, Doutor Teles, que ainda não descobriu a pólvora para o seu electrão, ou para o Senhor Serafim do minimercado que vê a fruta paquistanesa invadir o bairro, bem mais barata.

Afinal, não será de todo lógico que os sentidos de Caos e Tranquilidade sejam efectivamente opostos um do outro. A definição de tais palavras não vive em contradição. Apenas a sua consciência. Não é o Senhor Serafim ou o Doutor Teles quem o afirma.

É a cegonha que o confirma.

jef, julho 2017

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Sobre o filme «Mãe Rosa» de Brillante Ma Mendoza, 2016















Quando se olha de dentro do carro da polícia a banda sonora ocupa o espaço de uma cidade toldada pelo ruído, pelo movimento, pela chuva. Parece ouvir-se um chiar de roda eléctrica sobre os carris. O silêncio da música instala-se. Estamos isolados do mundo e da família. Assim como Rosa e Nestor, apanhados pela rede da polícia corrupta, pelo vício lamacento, pelos 50.000 pesos necessários para uma fiança arrancada a ferros. A família está separada. Mas a família é o único garante para que a vida ganhe à sobrevivência. Os filhos humilham-se para que o orgulho vença. Têm de vencer. Manila não soçobrará. A família é una e indivisível.
Brillante Ma Mendoza faz de novo tese após «Lola» (2009) e faz parar a angústia e a ansiedade sobre a longa cena em que Rosa Reyes (Jaclyn Jose) vai empenhar o telemóvel da filha pelos necessários 4.000 pesos e, finalmente, as lágrimas soltam-se em silêncio. Ela fica a olhar uma mãe e um pai a fecharem o negócio ambulante com a ajuda dos filhos crianças.
Finalmente Rosa fará, uma vez mais, reerguer a família. Mas está sozinha.
Naturalmente Jaclyn Jose recebe em Cannes (2016) o prémio para melhor actriz principal.

jef, junho 2017

«Mãe Rosa» (Ma' Rosa) de Brillante Ma Mendoza. Com Jaclyn Jose, Julio Diaz, Baron Geisler, Jomari Angeles, Neil Ryan Sese. Filipinas, 2016, Cores, 110 min.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Sobre o disco «Mim Ê Bô» de Tito Paris. Ruela Music / Sony, 2017















Há 15 anos que Tito Paris não gravava um disco de originais.
Esperámos 15 anos pela voz rouca, suave, terna, que acarinha antes de cantar. Esperámos mas agora arrecadamos.
Lisboa, porque é difícil pensar na noite lisboeta sem Tito Paris, Lisboa bem aguardou pela sua forma estranha de colocar, em simultâneo, a música cabo-verdiana no centro de todas as latitudes crioulas: a morna, o bolero, a bossa nova, e até aquele «groove» à Manu Dibango («Bô» dançado em conjunto com Boss AC).
Mas no centro do centro está, para mim, essa faixa, «Resposta de Segredo cu Mar» de B.Leza, que Tito Paris canta com Bana, uma morna-fado-canção, onde os arranjos de cordas (Tomás Pimentel) e metais (Yan Mikirtumov) dão a poética do cançonetismo a um dueto irrepetível.
Se falo no trompetista Tomás Pimentel é com a justiça de sublinhar anos de trabalho e sensibilidade em redor da música africana (e da outra). Tomás Pimentel, responsável pelos arranjos de metais e cordas, leva o álbum para um mundo belo mas estranho, entre o sinfónico e a canção nostálgica («Fado Triste» de Vitorino).
Quanto mais busca formas de expressar a voz do Mindelo e da ilha de São Vicente, mais Tito Paris se próxima da tradição. «Ilha na Meio d’Oceano» tira-nos as dúvidas, «Mim Ê Bô» deixa-nos os pés a trautear o outro como reflexo de nós próprios, «Santiago Amor» (com Zeca Baleiro e apenas ao som fino do piano) lança-nos à saudade pura e indizível.
E, tome-se muita atenção, os arranjos base de 12 das 13 canções são do próprio!
O que seria das nossas cidades (e da nossa alma) sem a música de Tito Paris?

jef, abril 2017

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sobre o livro «A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado» de Gonçalo M. Tavares, Bertrand 2017















Lobos maus e más aranhas.
Este é o caderno 38 e para que a biblioteca esteja organizada devemos situá-lo numa nova sessão: «Mitologias».

A linguagem de Gonçalo M.Tavares é um paradoxo. Em simultâneo, parece identificável, circunscrita a uma sintaxe própria, definida por títulos, tabelas e tumultos característicos e indexados. Por um lado, parece estável mas, em análise sequencial, surge lúdica, desabrida, talvez louca. Sem dúvida, universal e intemporal.

Neste tomo, uma palavra (revolução) sugere um ténue fio de aracnídeo que o liga aos anteriores: «Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai» (Porto Editora, 2014) ou «O Torcicologologista Excelência» (Caminho, 2015). Mas talvez seja ilusão ou exagero ou tolice encontrar por aqui tais ligações.

Estas Mitologias revelam até onde a cultura popular está enraizada em mitos profundamente insolúveis, em medos indecifráveis, nos traumas mais inultrapassáveis, nos defeitos mais repulsivos, nas fobias mais colectivas. Quem tem medo do quarto escuro? Quem mete medo com o homem do saco, o lobo-mau, o mau-olhado, a aranha felpuda a passear nas costas da mão, o pássaro a bicar a nuca, a moura encantada e atirada ao poço, a bruxa-má e o cigano-ladrão, a revolução que vai tirar o sossego, a cabeça desaparecida, o futuro por resolver, o passado sombrio, o presente fechado no quarto escuro?
Será que o povo deve ir ao psicanalista?
Não!
Gregos, Latinos, Etruscos, Egípcios, Ibéricos sempre contaram as suas loucuras. Histórias Amedrontadoras por Explicar. Aracne, Minotauro, Leda, Dafne, Sísifo, Édipo… Alguns as escreveram.
Muitos as leram e acreditaram nelas.

jef, junho 2017

terça-feira, 27 de junho de 2017

Sobre o filme «Glória» de Petar Valchanov e Kristina Grozeva, 2016

















O azar da honestidade.
Dos realizadores búlgaros Petar Valchanov e Kristina Grozeva já conhecíamos «A Lição» (2014) e a gestão da ansiedade psicológica e social feita pelas grandes narrativas cinematográficas. Cenas curtas, montagem célere, câmara a seguir os passos dos protagonistas. Também as mãos, os pulsos, os relógios. O Tempo, ou a sua falta, no cinema destes realizadores tem uma pulsão curiosa e angustiante.
Desse filme anterior conhecíamos já os extraordinários actores Stefan Denolyubov, Margita Gosheva. Aqui ela é Julia Staikova, a acelerada e calculista chefe do departamento de relações públicas do Ministério dos Transportes; ele é Tsanko Petrov, um humilde trabalhador ferroviário, e encontra uma enorme quantia de dinheiro na linha  que vigia diariamente. Tsanko Petrov entrega o dinheiro às autoridades e recebe um prémio por isso. Julia Staikova tem a oportunidade de melhorar a imagem do ministro e organiza a cerimónia…
…mas, pelo meio, um relógio é perdido e o Tempo desorganiza-se.
Os caminhos divergentes das duas personagens convergem, ou melhor, colidem. As circunstâncias e as condições tornam-se desfavoráveis para Tsanko e Julia. Contudo, em sentido diverso. A sociedade não ajuda, não deita água na fervura. Bem pelo contrário.

«Glória» pode ser visto como uma tragédia, um melodrama. Mas ao colocar uma carga tão forte de caricatura sobre todas as personagens, poderá ser olhado, igualmente, como uma alta comédia, negra e triste, de uma sociedade que é feita mais pela imagem do que pela honestidade.

E, pelo meio, não podemos esquecer o azar!

jef, junho 2017

«Glória» (Slava) de Petar Valchanov e Kristina Grozeva. Com Stefan Denolyubov, Margita Gosheva, Ana Bratoeva. Grécia / Bulgária, 2016, Cores, 101 min.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Sobre o livro «A Avó e a Neve Russa» de João Reis, Elsinore 2017















Tem 10 anos. É bom aluno. Possui um vasto vocabulário, um rico léxico. Vê os ácaros ao macroscópio. Escreve uma redacção para a Menina Michelle, a sua professora: «A minha família sou eu, o meu irmão Andrei e a minha avó Svetlana, a quem chamamos Babushka.» Por este texto, logo ao primeiro capítulo, ficamos a saber que o miúdo podia ser russo ou ucraniano se não tivessem passado os ventos tóxicos por Chernobyl. Assim sendo, é canadiano, nascido em Montreal, terra de muitas gentes de origens diversas mas de muita compreensão.
Ele deseja a todo o custo salvar a Avó. E actua.

João Reis surge como ficcionista na novela «A Noiva do Tradutor» (Companhia das Ilhas, 2015), mostrando uma escrita firme, dirigida mas contida, fruto de muito trabalho, de muita leitura, tradução, edição.
Volta com um romance livre e consciente. Eu gosto da escrita livre e consciente. Só, deste modo, faz sentido a leitura.
Mas este também é um romance iniciático, simultaneamente divertido e triste, agreste e terno. Um difícil consenso do qual o autor sai pela porta maior com uma grande narrativa onde a comoção e a consciência social combinam com o humor sem espalhafato.

Lembrar-me de Tom Sawyer, Huckleberry Finn, Nils Holgersson, ou Daniel, saído de «O Índice Médio de Felicidade» de David Machado (Dom Quixote, 2013), não é nada mau. Só um bom livro vai sacar à memória do leitor os seus livros de eleição, juntando-se-lhes.

João Reis, um escritor cuja obra devemos prestar mesmo muita atenção.

jef, junho 2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sobre o livro «Requests ou Permissão para Respirar» de Firmino Bernardo precedido de «A Dança das Raias Voadoras» de Ana Lázaro, Companhia das Ilhas 2017















3ª Edição do Laboratório de Dramaturgia. 2016. Teatro Meridional / Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa. Até quatro actores que, inesperadamente, ficam confinados a determinado espaço.

A Firmino Bernardo, na sua escrita dramatúrgica enraizada no humor e na tradição brechtiana do conflito que opõe o espaço, a palavra e o homem-social, os limites propostos pelo Laboratório serviram, principalmente, para ampliar o campo do Trabalho, quantas vezes minado, quantas vezes revoltado. Assim foi, em «As Grandes Dionísias» (Apenas Livros 2013), escrito em parceria com Suzana Branco, e «Dura Tchekhov Lex Sed Tchekhov Lex» que venceu o Prémio Novas Dramaturgias FITA / LdE 2015. Firmino Bernardo gosta de explorar o espaço confinado e coloca o leitor / espectador não tanto sob a angústia do sitiado mas, acima de tudo, à mercê da ansiedade que o aprisionado faz recair sobre o outro.
Albertina, Bartolomeu e a voz sapiente e ineficaz de Cândido estão dentro de aquários-terrários onde quem vigia também é vigiado, também impõe o respectivo nervo, a provável paranóia. A ansiedade proposta pelos vigilantes, contudo, vai sendo transformada em conluio agressivo mas solidário de vigiados, num humor crescente onde cenário e adereços têm vida própria e não necessitam de «requests» para imporem a ordem física, quase circense.
Firmino Bernardo é uma voz séria no teatro português.

«A Dança das Raias Voadoras» de Ana Lázaro parte de outra premissa: o espaço infinito do mar que sustenta a claustrofobia de um casco à deriva. Quatro adultos infantilizados ou quatro miúdos a quem as circunstâncias, esclarecidas em longas falas, ditam como lhes foi truncada a infância. Uma delas não fala, as outras entram em conflito-mimado ou amuo-guerreiro sobre as presentes ausências ou os desastres da memória. A guerra pode ser mais imaginada mas é real.

jef, junho 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sobre o filme «O Conto dos Crisântemos Tardios» de Kenji Mizoguchi, 1939.














A beleza, o amor e a política.
A mestria de Kenji Mizoguchi é tal que é difícil não afirmar que qualquer um dos seus filmes não é a súmula, o corolário, a afirmação dos restantes. Tanto os que o antecedem como todos os que o seguiram.
«O Conto dos Crisântemos Tardios», 1939, parece um filme conclusão, um filme que tanto busca na tragédia clássica da Grécia e de Shakespeare, como na ópera romântica de tradição italiana ou alemã. Um filme-conclusão que tem o centro, ali, irremediavelmente ligado  à ancestral ópera japonesa.
Mas o centro do filme roda e vai glorificar o esforço pela perfeição no teatro, a infalível busca pela verdade que está sempre contida na ribalta seguinte. O amor pelo Trabalho é uma das estratégias de Mizoguchi.
Também a devoção inquestionável no Amor que transforma o final deste filme num incomparável poema à paixão entre dois seres. A amada que parte e pede ao amado para não faltar ao aplauso final do espectáculo levando-a, deste modo, consigo. A vénia sublime que este fará sobre o rio. Uma vénia submissa e triunfal feita ao espectador, ao espectáculo, e à dádiva caridosa que lhe votou a sua protectora, orientadora, mulher, amante e diva. Até à morte.
No fundo, contra a austeridade de uma família, da casta teatral «dos crisântemos», vence afinal a insubmissão no seio da tradição e do rigor teatrais. Esta é outras das «vontades políticas» que sempre orientou o trabalho do realizador.
Finalmente, a inflexibilidade, a intransigência, a luta árdua de um artista que coloca a parafernália feroz da máquina cinematográfica ao serviço da beleza mais pura, das histórias mais comoventes, da consciência e da acção pela humanidade.
São estes filmes infalíveis!

jef, junho 2017

 «O Conto dos Crisântemos Tardios» (Zangiku monogatari) de Kenji Mizoguchi. Com Shôtarô Hanayagi, Kôkichi Takada, Gonjuro Kawarazaki. Argumento: Yoda Yoshikata, Director de fotografia; Yozô Fuji, Minoru Miki. Japão, 1939, P/B, 143 min.

Sobre o teledisco «Tyto alba», Talbot 2016


Tyto alba

Os ninhos são as folhas
Que a árvore não quis ter
Filhos, promessas e escolhas
De um futuro por haver.

Triste sina é a da ave
Que não sabe ouvir o sino
O piar triste de um verso
Na brisa do desatino

Tyto alba Tyto alba
Vem lavar a minha alma
Noitibó, meu noitibó
De noite, quem não está só?

O alegre voar da pena
Sobre a brisa da aresta
Faz das folhas o seu ninho
Das aves um trilho apenas

No repicar do sino
Voa o piar da igreja
Um grito de coruja
Em vã prece nocturna

Ter um filho por crescer
E esperança no que é novo.
É ver a crença nascer
A bicar dentro do ovo.

Vão ligeiras as palavras
Como as pedras ou os filhos
Vindos da fraga ou do ninho
Dão temperança e cadilhos.

Cai a pena e o granito
No fundo desta ravina.
Foge veloz com o tempo
Falsa lembrança divina

Quem te poupa Upupa epops
Do trabalho garantido
Olha só o Oriolus
Quem o papou, chamou-lhe um figo.

Sai do mato a voar
Na sombra do arvoredo
Vem pela noite lembrar
O que um dia quis esquecer.

A noite traz o segredo
Escondida a cotovia
Diz adeus à coruja
E corre a alcançar o dia.

Letra: João Eduardo Ferreira
Guitarra Portuguesa: M-Pex

«Talbot», Hob Recordings 2015
https://www.facebook.com/talbotband?ref=ts&fref=ts
http://hobrecordings.tumblr.com/

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Sobre o filme «Festa em Gion» de Kenji Mizoguchi, 1953
















Consta que a palavra Bayashi não descreve propriamente festa ou músicos, mas um certo rufar de tambores que anuncia a festa anual no bairro de Gion, em Quioto.
A tradição no centro de um filme que se desenvolve na teia modernista dos negócios de um Japão pós-guerra.
O que mais surpreende, ensina e comove, neste filme sobre a vida das gueixas é o espelho dessa realidade económica e social quando recai sobre a vida daquelas duas mulheres. A curiosa, inexperiente e tão jovem Eiko, que se transforma na bela e estilizada bonequinha Miyoe, alindando as festas «comerciais» de homens ávidos de estatuto social. E Miyoko, com tarimba, a não menos bela gueixa de estilo e estatuto, a quem é confiada (e em quem confia) Miyoe.
Sobre a guerra da economia e do poder monetário, cresce a afirmação do poder feminino e da escolha exigível face aos parceiros que as contratam. Ser gueixa é também um código que deve ser imposto.
Ser gueixa é uma profissão exigente e bela que não pode condescender.
Ao dinheiro que tudo paga e deve satisfazer, existe uma norma de conduta e de protecção a seguir. Uma lei que a amizade impede de transigir.
Miyoko pode ser banida do circuito comercial das casas de gueixas mas não abandona Miyoe, ama-a até. Miyoe sabe que, por ela, Miyoko não tem trabalho, e implora que a deixe partir. Ela recusa, permanece inflexível, abraçam-se, aperaltam-se e partem de novo para a noite onde os tambores ainda se ouvem.
Este é o tema chave destes filmes maravilhosos. Uma das demandas principais de Kenji Mizoguchi.
Um prazer para os olhos, um fulcro para alma.

jef, junho 2017

«Festa em Gion» (Gion Bayashi) de Kenji Mizoguchi. Com Michiyo Kogure, Ayako Wakao, Seizaburô Kawazu. Japão, 1953, P/B, 82 min.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sobre o filme «O Intendente Sansho» de Kenji Mizoguchi, 1954















«Um homem sem compaixão é como um animal. Ama todos os outros homens, qualquer que seja a sua condição, porque todos os homens nascem iguais. Podes ser duro para contigo mas nunca sejas cruel para com os teus semelhantes.» 
[Outra tradução fala em misericórdia e em ser-se misericordioso.]

Diferem a etimologia e os vocábulos mas não adultera um milímetro a elegia da bondade que Mizoguchi expõe em «O Intendente Sansho». Um dos mais belos e teóricos, mais justos e moralmente imperiosos, mais ternos e comoventes filmes que alguma vez vi.

São aquelas as palavras que o pai faz repetir ao filho Zushio, ainda criança, quando lhe entrega a imagem da Deusa budista da Misericórdia. Zushio e a sua irmã Anjú levarão a sua vida, a perseguir aquele lema mesmo em tempos da escravatura. Zushio fará tudo para repor a verdade da liberdade, para emendar os seus erros, para encontrar a sua mãe, a sua irmã, o seu pai. Contudo, todos se castigam para que tais valores sejam cumpridos na íntegra, para que a conduta seja irrepreensível. Só desse modo farão feliz o próximo mesmo que, por isso, este sofra.

Aqui a palavra é tida como confiança, a palavra como «senso familiar», como acto sublime de amizade ou de supremo amor, de justiça política. A palavra assume um carácter sobre-humano, de acto de compaixão, da misericordiosa dádiva perante o outro.

«O Intendente Sancho» é uma parábola assombrosa que nos lembra a dor, o horror que vai passando por este tão próximo e anacrónico século XXI. Um mundo sem compaixão [ou misericórdia], um «mundo animal» que devia tomar mais atenção ao épico concluído de Kenji Mizoguchi. 

E que as lágrimas que o «O Intendente Sansho» faz correr sejam mais do que homenagem, sejam a consciência desse sumptuoso engenho que nos impele ainda a acreditar na ética e na estética como dínamos de um futuro mais belo e justo. Enfim, um futuro mais humano.

jef, junho 2017


«O Intendente Sansho» (Sanshô Dayú) de Kenji Mizoguchi. Kinuyo Tanaka, Yoshiaki Hanayagi, Kyoko Kagawa, Eitarô Shidô, Masao Shimizu, Akitake Kawano, Ruôsuka Kagawa, Ken Mitsuda, Nooki Fujiwara, Keiko Enami, Shôzo Nambu, Keiko Koyonagi, Teruko Omi, Chieko Naniwa, Kikue Mori. Argumento: Yoshikata Yoda e Fuji Yahiro sobre o conto de Ogai Mori. Japão, 1954, P/B, 122 min.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sobre o filme «United States of Love» de Tomasz Wasilewski, 2016


















Fala-se do muro de Berlim. Fala-se de Mikhail Gorbachev. Estamos algures num subúrbio, na Polónia. 1990. As cores são estudadas. O cinzento é azulado, o vermelho, raro vermelho, é sombrio. O branco é quase negro e o preto tem laivos acastanhados. A arquitectura da imagem é planeada em simetria de prédios e escadas, cadeiras, cozinhas, casas de banhos. Os corpos são apresentados a nu numa estrutura que não deixa traços de amor. Apenas sexo desolado e suor seco.
Quatro mulheres contam as suas histórias de modo encadeado como nas mil e uma noites. Para não dormir. Para deixar o espectador inquieto, perante o expectável inconclusivo. São quatro mulheres sem paradeiro mas com a construção das grandes actrizes: Iza (Magdalena Cielecka), Renata (Dorota Kolak), Agata (Julia Kijowska), Marzena (Marta Nieradkiewicz). É extraordinário ver surgir grandes personagens através de um argumento sólido.

Contudo o filme não comove. A fotografia é cuidada, os enquadramentos perfeitos, mas Oleg Mutu, o fotógrafo moldavo que construiu a luz e o corpo de muitos dos grandes filmes romenos da última década, não consegue quebrar o gelo do enquadramento geométrico. E o realizador Tomasz Wasilewski não consegue «sentimentalizar» o soberbo pantone-pastel que tem na mão.

Tudo parece estar certo neste filme mas falta-lhe qualquer coisa.

Ou andarei eu viciado do Mestre entre os mestres, Kenji Mizoguchi?

jef, junho 2017


«United States of Love» (Zjednoczone stany milosci) de Tomasz Wasilewski. Com Julia Kijowska, Magdalena Cielecka, Dorota Kolak, Marta Nieradkiewicz. Suécia / Polónia, 2016, Cores, 106 min.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sobre o filme «A Imperatriz Yang Kwei Fei» de Kenji Mizoguchi, 1955


















Pedro e Inês, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. 
Todas as histórias ancestrais de amor consequente-inconsequente são, no fundo, fábulas políticas.
Também o amor do viúvo imperador Shuan Tsung e da belíssima ajudante de cozinha imperatriz Yang Kwei Fei.
O amor tenta impor, a sociedade mais tarde vem e dispõe.
É o mundo perfeito para Mizoguchi que vai buscar a história à mitologia chinesa. E o mundo de Mizoguchi é o mundo da perfeição e da beleza, da razão e do querer, da aura e do poder femininos.
Esta é uma história de encantar desencantando. De uma estética exemplar sobre a moral mais arrebatadora. A cena final em que a corda é substituída pelo lenço de seda branca entregue pelas mãos da própria imperatriz sacrificada é o símbolo do maior poder da devoção que é, em simultâneo, a maior dádiva pela paz de uma sociedade.
A nada a imperatriz cede a sua ética. Amor e intransigência moral.
Qualquer coisa de puro e essencial, de divinamente humano está contido nesta história.
Uma fábula humana bela e perfeita.

jef, maio 2017

 «A Imperatriz Yang Kwei Fei» (Yokihi) de Kenji Mizoguchi. Com Machiko Kyo, Mori Masayuki, Yamamura Sô, Kakae Ozawa, IsaoYamagota, Yoko Minamido, Noboro Kiritachi, Chieko Murata, Michiko Ai, Eitaro Shindo, Tatsuya Ishigura. Japão, 1955, Cores, 91 min.