quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ilusão















A que poderá o Sr. Belarmino Dias chamar «ilusão» quando, ao descer as escadas apressado, reparou na gata farrusca Zezinha da vizinha implicativa do rés-do-chão esquerdo a escapulir-se para a rua:

– ao que ele viu;
– ao que ele pensa que viu;
– ao que ele, na sua miopia de óculos com mais de 20 anos, não viu;
– ao que ele, na sua imaginação, viu na realidade;
– ao que ele, na realidade, deseja ver, já que todos sabemos que só se vê aquilo que se quer mesmo ver?

jef, novembro 2017

(«Nu descendo uma escada, #2», Marcel Duchamp 1912)

Sobre o disco «Bop Till You Drop» de Ry Cooder, Warner, 1979













Elogio do grande americano.
Existe um conjunto de músicos, cuja personalidade artística, coerência, imaginação, evolução e longevidade das suas carreiras, os colocam numa espécie de altar profano onde se escutam as mais belas facetas do Ser Humano. Lá encontramos Duke Ellington ou Miles Davis, rodeados de estrelas mais jovens, Tom Waits, Brian Eno, David Byrne ou Chico Buarque. São entes cuja obra ultrapassou os limites da suspeição e os seus futuros discos são desfrutados com a alegre ansiedade de os vermos chegar às prateleiras das discotecas (ou, agora, à legal piratagem do spotify). Por entre a galeria de criativos musicais, encontramos alguém que tem dedicado a vida a iluminar os melhores caminhos da música popular americana e, mais recentemente, da música de todos os continentes. Ry Cooder.

Após a universal divulgação do velho e extraordinário mundo crioulo e diverso de «Buena Vista Social Club» (1997), é importante reparar a injustiça de um certo esquecimento da sua actividade como musicólogo, prestando homenagem ao autor da banda sonora de «Paris Texas» (1985).

Ry Cooder tem de ser redescoberto também pelo rigor etnográfico, pela devoção à causa musical. Ry Cooder, guitarrista-cantor-compositor ou compositor-cantor-guitarrista, constrói um disco único com «Bop Till You Drop». Cada versão destas canções, símbolos de um pedaço maior da Grande América, torna-se a apologia teórica e feliz das raízes da soul, do gospel, do rhythm’n’blues, do jazz e da alegria da música negra, tal como antes tinha já exaltado os benefícios do blues, da country, do rock, da música tex-mex ou da música das tribos índias.

Ouvir este disco é conhecer um fascículo importante da «História Fundamental da Música Tradicional da América e do Mundo», escrita com a humildade e a generosidade que só o virtuosismo de um grande guitarrista permite.

Viva Ry Cooder!

jef, setembro 1997 / novembro 2017

(in D.I.S.C.O. nº 21)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Sobre o disco «Brel» de Jacques Brel, Barclay / Polygram, 1977















Sob os Céus de Bruxelas.

Na madrugada de 9 de Outubro de 1978 ascendia aos céus de Paris o génio mais endiabrado da canção francesa – Jacques Brel. Não que ele tivesse sido surpreendido pela morte, pois havia tempo que a aguardava. Melhor, foi a própria morte que se espantou com a edição do seu destemido e brutal epitáfio. Ausente há perto de 10 anos dos estúdios de gravação, Jacques Brel abandona o refúgio nas ilhas Marquesas e, numa viagem relâmpago em Agosto de 1977, vem a Paris gravar um punhado de novas canções, fazendo-o com o mínimo de ensaios e cantando simultaneamente com a orquestra. François Rauber, Gérard Jouannest e Charles Marouani foram, mais uma vez, os seus amigos e companheiros musicais. O resultado é esse álbum envolto num céu azul cheio de nuvens magnânimas, que tem o nome do próprio Brel.

Pelo meio da polémica que envolveu o cantor e a etiqueta Barclay ao lançar a campanha de promoção a coincidir com o próprio ponto final, ficam uma dúzia de canções de uma beleza nostálgica inqualificável, testemunhos frontais e sem compaixão do que fora o seu passado e do que seria a realidade do seu breve futuro. Não é de estranhar, portanto, que se inicie com «Jaurès», invocando a memória do socialista francês morto no início da I Grande Guerra, e cantando a juventude desperdiçada  pelo trabalho e miséria, para depois se despedir da cidade e do amor em «la Ville s’Endormait» e «Orly» ou odiar a sua doença em «Veillir». É sem dúvida intencional o modo como, sem contemplação, vocifera contra os seus eternos «amados» inimigos, os burgueses flamengos («Les F…») e a fortaleza feminina («Les Remparts de Varsovie» e «Le Lion»).

É absolutamente sublime a forma dramática como Brel se despoja e se rende à melancolia sem regresso na canção dedicada ao já desaparecido amigo e confidente Georges Pasquier, «Jojo», ou na fabulosa composição «Voir Un Ami Pleurer», terminando com uma obra-prima, viagem de uma serenidade enigmática, libertadora mas inexorável, onde contemplará pela derradeira vez os seus verdadeiros amores: a solidão, a mulher, o mar e a morte. «Les Marquises».


jef, maio 1997 / setembro 2017

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Sobre o disco «Harvest» de Neil Young, Reprise / Warner, 1972
















A América sempre sentiu um enorme prazer em usar e abusar, comprar e vender, as suas próprias graças e desgraças. Ali, tudo serve as leis do mercado e da sua tão característica democracia: as riscas, as estrelas, James Dean e Frank Sinatra, o Vietnam, JFK, a Guerra do Golfo, a Texas Instruments, Dallas, os cowboys, o barbecue e o petróleo. A música não foge à regra, muito menos a country, sitiada dentro das muralhas do seu bastião, Nashville. Sendo um produto tradicionalista, genuinamente popular, consumido por um povo de muitos milhões, é logicamente presa da pesada maquinaria usada pela lei comercial do país.

Claro está que logo aparece uma ou outra ovelha negra e inteligente a contestar essa massificação cultural, pois o natural numa sociedade normal é a diversidade e não o estereotipo. Foi exactamente o que aconteceu com «Harvest», o disco que o Neil Young publicou em 1972. Levando na bagagem a experiência única adquirida com os seus companheiros Crosby, Stills & Nash, esse eterno monarca canadiano da música americana resolveu armar-se de toda a sabedoria popular e cercar a cidadela da country. Nashville rendeu-se, abrindo as portas à genialidade sinfónica, à estranheza da mistura dos arranjos ou à fusão perfeita entre a pop, o rock e a folk. Nunca ali se tinha ouvido um álbum com produção tão invulgar, misturando temas gravados em estúdio com a London Symphony Orchestra e outros tocados ao vivo e escoltados por um conjunto de músicos e coros tão requintados: os Stray Gators; Crosby, Stills & Nash; Linda Ronstadt ou James Taylor.


Num instante, «Harvest» transbordou de Nashville e as suas inesquecíveis dez canções conquistaram o mundo. A ovelha negra e inteligente Neil Young contestou o mercado americano de forma magnífica e logo este o conquistou de novo. A América voltou a dormir descansada.

jef, dezembro 1997 / setembro 2017

(in D.I.S.C.O. nº 23)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sobre o filme «A Sombra do Caçador» de Charles Laughton, 1955






Este filme é um objecto estranho. Custa a acreditar que tenha sido produzido e realizado pela MGM em 1955, de tal modo é estética e moralmente «estelizado». Quero dizer, firme, inflexível, exagerado, programático e, ao final de mais de sessenta anos, intocável.

As figuras vêm de uma pantomima da «commedia dell'arte» em que a luz negra faz avantajar a sombra de Harry Powell (Robert Mitchum) sobre uma janela psicologicamente ameaçadora. Apesar de tudo, as crianças vão dormindo…

A lanterna mágica surge dentro de uma cenografia «Bauhaus» e a realidade aproxima-se do pesadelo de tal modo que os degraus das escadas, as margens do rio, os animais fantasma, saem de um conto de fadas más ou de um museu de história pouco natural. Rachel Cooper (Lillian Gish) protege os cordeiros em tempos de Natal, de caçadeira em riste. Mas as crianças já não o são e o seu choro é adulto.

O confronto ético religioso coloca em causa o bem e o mal mas, acima de tudo, o legal e o ilegal. Um reverendo misógino, assassino de mulheres e ladrão, prega a moralidade para que Icey Spoon (Evelyn Varden) faça de coro maléfico, ampliando as desgraças e desculpando os pecados. Entretanto, as crianças confundem as histórias bíblicas – Moisés, Jesus –, e os irmãos John Harper (Billy Chapin) e Pearl Harper (Sally Jane Bruce) “resistem e perduram”.

«A Sombra do Caçador» é uma elegia vinda do trágico sangue grego como se um Frank Capra ou um Kenji Mizoguchi tivessem a noção da doutrina do mal. Uma tragédia que até poderia acabar bem…
…não fosse o miúdo, escondido no celeiro, avistar o cavaleiro em contraluz e sussurrar:
 «Mas será que ele nunca dorme?»
                                                                                  
jef, novembro 2017

«A Sombra do Caçador» (The Nigth of the Hunter) de Charles Laughton. Com Robert Mitchum (Harry Powel), Shelley Winters (Willa Harper), Lillian Gish (Rachel Cooper), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Don Beddoe (Walt Spoon), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper), Gloria Castillo (Ruby). Música: Walter Schumann. Fotografia: Stanley Cortez. EUA, 1955, P/B, 90 min.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Sobre o filme «Peregrinação» de João Botelho, 2017

















Existe qualquer coisa neste filme de inconsistente ou, talvez, de insólito …. De fragmento. De trágico. De cómico. De narrativa quebrada. De filme musical que não deixa de ser filme híper-romântico. De beleza extrema que contraria a fábula dos cenários e das paisagens fantásticas, sem nunca se contagiar com o degradante «efeito especial».

Um grande amigo meu lembrava bem e eu respondia: «Tens razão, Adriano! Sim, “Os Canibais” de Manoel de Oliveira!».

O livro também é assim! Fragmentado, louco e ilegível (porque já ninguém o lê!), totalmente visível por ser das narrativas mais cénicas, mais deslumbrantes, mais cabriolescas, mais inventivas e mentirosas de sempre.

João Botelho é exímio a fazer teatro. Faz de cenários reais, do mar imenso e dos marinheiros cantantes, uma ópera para deslumbrar o São Carlos.

E «insólito» pode ser sinónimo de «inconsistente»? Fernão Mendes, que Minta!

jef, novembro 2017

Botelho, João “Peregrinação”. Cláudio da Silva, Luís lima Barreto, Ricardo Aibéo, Jani Zhao, Catarina Wallenstein, Rui Morisson, Cassiano Carneiro, Pedro Inês, Maya Booth e Zia Soares, Marcello Urgeghe, João Cabral. Música: Fausto, Daniel Bernardes e Luís Bragança Gil. Portugal, 2017, Cores. 109 min.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Sobre o disco «Colors» de Beck, Fonograf / Capitol, 2017
















Nada de novo na Frente Ocidental. Contudo…
Beck Hansen tem aquele dom muito seu de ir corrigindo o próprio passado musical através de um modo futuro ou maneira de ser que se assemelha a um «método» ou um «sistema» mas que também se pode aproximar do caos das partículas que, a determinado momento, jamais confirmam o lugar onde se encontram.

Desde 1994, com esse célebre «Mellow Gold» e todos os outros álbuns mais ou menos escondidos (inqualificáveis, finos, brutos, barulhentos, dançantes, festivos, amáveis), que nos habituámos a esse modo hip-hop-transgénico-vegan / trash-bossa-nova / folk-heavy-country / pop-rock-delight.

Pode «Colors», com as 10 canções, não construir verdadeiramente nada de novo a ocidente da novidade mas traz Beck de novo. Colors – Seventh Heaven – I’m So Free – Dear Life – No Distraction – Dreams – Wow – Up All Night – Square One – Fix Me. 

À 20ª audição revejo o espelho de «Mellow Gold». E isso é bom. Pois as origens nunca estão onde nos prometeram… E o futuro da música também nada nos garantirá!

«Colors». Nada mais simples! Nada mais Pop! Nada mais primaveril para o início do Inverno! Se não existem notícias a Ocidente, viremo-nos para os restantes pontos cardeais. Façamos as articulações articularem. Dancemos a Oriente!

jef, novembro 2017

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre o filme «Para Além do Paraíso» de Jim Jarmusch, 1984

















A solidão da chegada.
Ou como Eva (Eszter Balint), vinda de Budapeste, não é recebida por Willie (John Lurie), seu primo. Ou como Eddie (Richard Edson), amigo de Willie, repara em Eva. Ou como os dois amigos partem de carro, com o bolso cheio de dólares ganhos ao póquer (com bluff), em busca de Eva que foi viver com a tia Lotte (Cecilia Stark).
Afinal, um filme sobre a solidão das chegadas e de um certo fim dos sonhos de juventude. Apesar de tudo, o oposto de «Jule e Jim» de François Truffaut (1962) e «Bando à Parte» de Jean-Luc Godard (1964). Apesar de tudo, três filmes em hipótese e tese.
Afinal, para quê partir se tudo é igual em todo o lado?
Nova Iorque – Cleveland – Florida.

Este filme destrói a esperança com o humor sub-reptício das curtas cenas separadas por slides negros para oferecer ao espectador o tempo de as digerir, estética e cognitivamente, e entender como é possível fazer uma comédia sobre a desilusão e as eternas falsas partidas.

O diálogo com o amedrontado, zangado ou febril, operário fabril. A bisca jogada com a tia Lotte. A beleza branca do lago de Cleveland. A balada «I Put a Spell on You» de Screamin Jay Hawkins, a sair de um leitor de cassetes.

Na realidade, nada mais estranho do que o Paraíso.

jef, novembro 2017


«Para Além do Paraíso» (Strager than Paradise) de Jim Jarmusch. Com John Lurie, Eszter Balint, Richard Edson, Cecillia Stark, Danny Rosen, Tom DiCillo. Música: John Lurie. EUA, 1984, P/B, 89 min.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sobre o disco «French Touch» de Carla Bruni, Teorema / Verve / Universal, 2017


















Gosto muito deste disco. Na música popular a essência da novidade está, exactamente, em repetir segundo o coração que a ouve. E Carla Bruni repete-me bem algumas das canções nele instaladas mas sem macular a memória que delas guarda, adicionando-lhes ainda a dose justa de falta de vergonha e desfaçatez que dão aquele toque especial de estarmos a pisar terra de incréu.

Juntar Depeche Mode «Enjoy de Silence» (já que as palavras magoam) com Clash «Jimmy Jazz», «Love Letters» de Dick Haynes e «Miss You» dos The Rolling Stones, não seria razoável.

Renegociar o «The Winner Takes it All» dos Abba, colocando-o mesmo antes do «Crazy», em dueto com o próprio Willie Nelson, e depois atirá-lo para os braços dos AC/DC («Highway to Hell»), tem que se lhe diga.

Ir tocar na perfeita «A Perfect Day» de Lou Reed e colá-la a «Stand by Your Man» (Tammy Wynette), que me traz à memória a extraordinária Dolly Parton, ultrapassaria os limites.

Mas, pior, terminar recordando Rita Hayworth em «A Dama de Xangai», com «Please Don’t Kiss Me», ou a intocável «Moon River» cantada por Audrey Hepburn em «Breakfast at Tyffany’s», seria razão para mandato de prisão imediata!

Mas o raio do disco roubou-me o músculo cardíaco. Carla Bruni deixa a sua voz de Nouvelle Vague / Nouvelle Chanson ao sabor dos arranjos cirurgicamente simples e discretos de Davis Foster que sabem acarinhar e esconder a sua afinada desafinação.

Mas se não gosta da forma sussurrada, por vezes adolescente no vibrato, por vezes quebrada no pianíssimo, entre o jazz de bar de hotel e a jukebox de um diner madrugada dentro, não vai ser agora. Esqueça! Esqueça também Sarkozy!
Carla Bruni continua a ser o que sempre foi… a cantar o que sempre quis.
E continua linda de morrer nestas fotografias de antologia realizadas por Mario Sorrenti, esse tal…

jef, novembro 2017

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sobre o filme «O Outro Lado da Esperança» de Aki Kaurismäki, 2017
















De Helsínquia, com esperança. Ou seja, De Helsínquia com amor.         
Aki Kaurismäki consegue não se rir. Mesmo quando fala das coisas mais sérias. Qualquer coisa entre Dario Fo e David Lynch. Qualquer coisa entre o político, o estético e o Jacques Tati.
O refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji) chega ao porto de Helsínquia escondido num navio de carga e quase é atropelado pelo ex-vendedor de camisas Wilstrom (Sakari Kuosmanen) que acabou de deixar a aliança no cinzeiro da sua mulher, alcoólica. Khaled e Wilstrom, um empregado, outro patrão, acabam irmanados no exílio de um restaurante que, para sobreviver, deve alterar as ementas ao sabor do gosto da clientela. Khaled perdeu a irmã algures nos Balcãs, Wilstrom ganhou uma pipa de massa à mesa de um casino clandestino.
Em «O Outro Lado da Esperança», Kaurismäki coloca os actores quase esfíngicos, ao som de uma série de velhas bandas finlandesas de blues, dentro de cenários muito mais «eslavos» que «escandinavos», deprimidos e cinzentos, sob a égide de Jimmy Hendrix e da solidariedade mais amorosa.
Desde a magnífica cena quase sem palavras em que Wilstrom, de mala na mão, se despede da mulher, até aquela outra cena, quase bíblica, do grupo de skinheads que atacam Khaled e que são rechaçados por um grupo de desgraçados sem-abrigos.
Tudo neste filme está do lado da esperança, é seriamente cómico, é delirantemente sério, é esteticamente estilizado para que o olhar e a consciência do espectador se concentrem no essencial da Arte.
«O Outro Lado da Esperança» é um filme fora de moda e totalmente dentro do nosso tempo. A ser visto com urgência!

jef, novembro 2017

«O Outro Lado da Esperança» (Toivon Tuolla Puolen) de Aki Kaurismäki. Com Sherwan Haji , Sakari  Kuosmanen, Dome Karukoski, Ville Virtanen, Kati Outinen. Finlândia, 2017, Cores, 100 min.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sobre o filme «A Paixão de Van Gogh» de Dorota Kobiela e Hugh Welchman, 2017














Diz a nota de imprensa. «Este "biopic" sobre Vincent Van Gogh apresenta-se como a primeira longa-metragem "completamente pintada do mundo". Foram pintados e repintados 853 quadros a óleo, trabalho realizado por mais de 100 artistas diferentes a partir de 130 obras do pintor holandês. Ao todo, 65 mil fotogramas.»
E acrescenta: «A história foca-se mais na morte do que na vida do artista».

E eu, ao assistir à hora e meia do filme:
a)     confirmo a beleza deslumbrante de um pintor genial que mudou radicalmente o modo de olhar a arte, a cor, a luz, o retrato, o campo agrícola, a paisagem. Mais importante, alterou o princípio psicológico de interpretação do próprio olhar;
b)     reconheço o trabalho extraordinário da equipa técnica, dos pintores, actores e produtores (e músicos), para nos transmitir o esplendor colorido de Vincent Van Gogh;
c)     fui levado através de uma narrativa urgente e bem intrincada pelos últimos e trágicos dias do mais trágico dos pintores;
d)    fiquei com a sensação de que alguma coisa nesta animação ficou aquém, que o filme se tornava ingénuo, vagamente descrente de si próprio, talvez infantil ou bacoco, a deixar plana, a duas dimensões, sem pontos de fuga ou linhas de horizonte, sem futuro, uma das pinturas mais esculpidas e futuristas do mundo…

contudo, valeu bem a ida ao cinema.

jef, novembro 2017

«A Paixão de Van Gogh» de Dorota Kobiela e Hugh Welchman (Loving Vincent). Com Saoirse Ronan , Jerome Flynn, Aidan Turner, Douglas Booth, Chris O’Dowd, Robert Gulaczyz, Eleanor Tomlinson, John Sessions, Helen McCrory. Animação. Grã-Bretanha, Polónia, 2017, Cores, 95 min.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Sobre o disco «Born to Die» de Lana Del Rey, Interscope / Polydor 2012
















Só agora me chega aos ouvidos «Born to Die».
Aplaudido, criticado, rechaçado, divinizado, suspeitado… Cinco anos depois, alguma história ficou da discussão? Não acredito.
Existe qualquer coisa envelhecida, algum pó ligeiramente cediço depositado sobre as 12 longas faixas que deixa fechados os ouvidos de quem as escuta, que as torna lineares. Esquecidas.
Figura vintage a lembrar os terríveis anos 50. Puros, belos, atómicos, frios e bélicos. Americanos. Um ar a tocar a desmilinguida colegial atrevidota, lábios carnudos, físicos, quase virtuais… Mas figuras não se escutam, apenas indicam.
A produção é mesmo muito boa de Emile Haynie, apesar de soar a limpa como água destilada. As canções escritas por Lana Del Rey, Tim Larcombe e Jim Irvin, envoltas em arranjos e orquestrações modelares, perfeitos, mas sem golpe de génio que faça distinguir umas das outras. Interessantes os arranjos do naipe de cordas de Larry Gold (talvez mesmo o mais interessante). Letras entre a depressão, o fora da lei, a droga, o amor transviado. Um toque de sangue e rosas adequadamente honesto. Canções irrepreensíveis para acompanhar a gama Classe E da Mercedes Benz ou a fragância “brand new old oak” da Lâncome. Já terão convidado Lana Del Rey para o genérico do mais recente, polido e de estilo, 007 –  agente preferencial da MI6?
As faixas vão tocando e acusam a minha ancestral memória auditiva e cognitiva, sempre errónea e errática, a fazer prevalecer o velho ouvido sobre a recente e linda Lana: Moloko & Róisín Murphy, Anita Lane, Anna Calvi, Julie Cruise, Kate Bush,… até Madonna ou Britney Sprears.
Mas, enfim, o facto é que continuo a ouvir «Born to Die» de Lana Del Rey… «Million Dollar Man» é uma boa canção!

jef, outubro 2017

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Sobre o filme «Blade Runner 2049» de Denis Villeneuve, 2017















Tenho de ser justo, «Blade Runner 2049» não é um mau filme, apenas tenho de esquecer que revi «Blade Runner: Perigo Iminente» de Ridley Scott (1982).
E o problema maior é que eu tenho esse filme bem vincado na memória. E o presente (futuro) deste segundo filme não merece o romantismo desfasado e anacrónico, belamente desfeado, para sempre marcado pela estilizada «replicant» Rachael (Sean Young) que devolve a vida humana ao humano «blade runner» Rick Deckard (Harrison Ford) quando se apaixonam e, por erro de fabrico, perde o prazo de validade ficando a desconhecer quando morrerá. Tal como os humanos.
Porque Ryan Gosling, o mais recente canastrão do cinema americano, não consegue levar o seu blade runner a nenhum confronto emocional com o espectador. Harrison Ford, que também nunca terá sido a nata do expressionismo, acabou por nos dar esse bruto contraponto com o inexplicável mau Roy Batty (Rutger Hauer), oferecendo à solidão desagregada de Los Angeles, suja e chuvosa, um desespero sem causa.  Mas isso era em 1982, com Ridley Scott, ao som de Vangelis. Agora o som é uma colagem mais barata de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer, e os cenários são todos plastificados pela nova tecnologia. Brilhantemente sujos, assepticamente húmidos.
Valha-nos as cenas no decrépito e amarelento casino, a morada de Rick Deckard, uma espécie de cenário construído por Wes Anderson.
Resta-nos também a interpretação de Robin Wright.
Porque terá a ficção científica no cinema de hoje de estar subjugada a estes efeitos especiais tão lisos e puros, que impedem os filmes de saltar por cima da moral de histórias à Walt Disney?
Por isso, continuo a defender a ficção científica de «Uma História de Amor» de Spike Jonze (2013) com Joaquin Phoenix e a voz de Scarlett Johansson.

Mas, no final, repito para ser justo, até estive bastante entretido durante os 163 minutos de «Blade Runner 2049».

jef, outubro 2017


«Blade Runner 2049» de Denis Villeneuve. Com Harrison Ford, Ryan Gosling, Ana de Armas, Jared Leto, Mackenzie Davis, Robin Wright, Dave Bautista, Sylvia Hoeks, Carla Juri, Barkhad Abdi, David Dastmalchian, Hiam Abbass. Música: Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer. EUA / Grã-Bretanha / Canadá, 2017, Cores, 163 min.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

História de Ninguém











História de Ninguém

Esta é a história do homem que previa. Não é a história do homem (João), vidente, a quem lançam moedas à porta do seu futuro jazigo. Também não é a história do desgrenhado (José) que, dizem, ter chegado numa nave supra-aérea para vir casar com uma mulher da Terra e montar escritório de futuros e coisas mais ou menos inexplicáveis em cartõezinhos que se distribuem à porta do metro da Rotunda-Marquês. Também não é a história do Joaquim que vendia chás, mezinhas e produtos químicos mal tirados de folhas secas ou da casca de árvores dúbias, mas também de um armazém de tintas e vernizes que o seu irmão mantinha numa garagem para além do aeroporto, para lá de Camarate. Também não é a história de Júlio, o homem que dizia ver coisas estranhas quando misturava benzina no abafado, coisas que vinham do outro lado, do hemisfério antípoda que anda sempre meio-dia adiantado. Também não é a história do homem com face de beato, cabelo encaracolado, de anjo, túnica de burel, olhar em alvo, apóstolo-posfeta, o décimo-quarto, que circulava falante ao fundo da Av. Roma, junto do gradeamento do Júlio de Matos. Esse chamava-se Jeremias. Esta é a história de Jaime que previa mesmo o futuro, organizando-o exaustivamente no calendário de bolso. O que Jaime esquecia é que um dia, num passo apressado, entre as gentes, dia de chuva, ao sair do autocarro, pasta a tiracolo, saco das compras, guarda-chuva na mão, a agenda onde guardava o futuro de bolso saltaria de vez para uma plácida poça de água e perder-se-ia para sempre.


jef, outubro  2017