quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Sobre o filme «O Desconhecido do Lago» de Alain Guiraudie, 2013












O silurus e a morte. «Le Déjeuner sur l´Herbe»
A situação é muito clara, a imagem também. Sentados lado a lado, Henri (Patrick d'Assumçao), gordo, melancólico, espera pelo fim das férias e conversa com Franck (Pierre Deladonchamps) que vem decididamente para o engate. As margens pedregosas da albufeira são a plateia ideal para encontros homossexuais. A conversa tem por tema o silurus, peixe-gato, espécie invasora, carnívoro, navegando pelo fundo. O predador pode atingir quatro ou cinco metros e assusta os banhistas que se aventuram até à outra margem. O mote está lançado entre uma hipotética Comédia e uma provável Tragédia. O seu reflexo está no plano de água que tarda em devolver um cadáver. As cenas sucedem-se em repetição, lentamente, tendo como separadores a ondulação da vegetação, das nuvens, da superfície aquática, do crepúsculo. A posição dos automóveis no improvisado parque de estacionamento dá as entradas de cena e incita a intriga a precipitar-se. Todos os personagens são colocados lado a lado. Evitam o campo-contra-campo, não há hierarquia, estão em palco frente ao público que os olha nos olhos e no sexo. Como nos anfiteatros da Grécia Antiga. Franck está inevitavelmente atraído por Michel (Christophe Paou) apesar de tudo sinalizar a sua perigosidade de predador, carnívoro, navegando na obscuridade. Mesmo assim Franck entrega-se não querendo distinguir entre a expectativa e o desejo. As cenas dos encontros sexuais entre Franck e Michel são claras, essenciais para confrontarem o espectador com a irremediável proximidade e a possibilidade do amor. Mas o medo permanece entre os fios da atracção. A noite surge com o aprofundar das investigações policiais, a cargo do inspector Damroder (Jérôme Chappatte), uma de entre as muitas figuras caricaturais que compõem o cenário torpe da busca sexual nas margens do lago. No centro, a Tragédia revela-se sobre Franck, tenta salvar Henri da sua entrega ao sacrifício, foge e esconde-se do predador de fundo. A noite invade-o mas termina a chamar silenciosamente pelo algoz.
Prémio de Melhor Realização na secção Un Certain Regard e Queer Palm na 66.ª edição do Festival de Cannes, um “thriller” escrito e realizado por Alain Guiraudie.

jef, novembro 2013

Sobre o filme «O Desconhecido do Lago» (L'inconnu du Lac) de Alain Guiraudie, 2013. Com Patrick d'Assumçao, Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Jérôme Chappatte. França, 2013, Cores, 97 min.

Sobre o filme «Ela» de Paul Verhoeven, 2016














«A Força do Sexo Fraco», como diria Ingmar Bergman no filme de 1964
ou «Belle de Jour», como diria Luis Buñuel no filme de 1967. Bergman e Buñuel privilegiavam o humor como modo principal do teatro.

Este é um filme que Isabelle Huppert oferece ao realizador Paul Verhoeven e ao escritor Philippe Djian (o de «Betty Blue», realizado por Jean-Jacques Beineix em 1986).

Michèle Leblanc é a personagem exacta para colocar Isabelle Huppert no centro do palco e provocar uma hecatombe moral centrada numa sociedade hiperactiva e em pré-demência. Não podemos esquecer «A Pianista» (2001) e «O Tempo do Lobo» (2003) que a actriz “realizou” para Michael Haneke. Isabelle Huppert gosta de interpretar mulheres que interpretam a vida. Por vezes com sangue e suor, algum esperma, mas com poucas lágrimas.

Será que Michèle Leblanc é vítima ou culpada ao referir ao vizinho, en passant, após uma consoada com scrabble, o salvamento misericordioso de um hamster durante a noite da tragédia?

Tudo aqui está reunido. (E tudo por dizer.) Uma família funcional. Uma vizinhança acolhedora. Um filho atinado. Uma empresa de futuro com empregados motivados. Um gato impávido. Um Natal perfeito. Entre o suplício e o desejo. Por fim, que tal um possível happy-end «fracturante», como hoje os políticos diriam?

Sem querer excitar as papilas da controvérsia e da crítica, «Ela» é uma das grandes comédias negras destes últimos anos.

jef, novembro 2016

«Ela» (Elle) de Paul Verhoeven. Com Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Alice Isaaz, Charles Berling, Virginie Efira. Sobre o romance “Oh…” de Philippe Djian. Alemanha / França, 2016, Cores, 130 min.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Sobre o filme «A Prisão» de Ingmar Bergman, 1949















Com este filme Bergman torna-se explícito, fundamental, categórico. Bergman a experimentar Bergman, a transformar a compreensão da vida enfrentando o espectador numa alta comédia de estilo, filosofia e espelhos.
Em «a Prisão», a ficha técnica é apresentada em voz off pelo próprio Bergman já o filme vai avançado nos pressupostos. Já sabemos que é um filme sobre um filme que está a ser realizado em determinado estúdio, interrompido à hora do almoço pela chegada de um velho professor de matemática que traz um argumento infalível para novo filme: o mundo anda a ser gerido pelo demónio que, para levar a sua avante, faz crer em certa imagem contemporânea e decadente de deus. Esta ideia é levada a Tomas, jovem meio-alcoólico, meio-suicida, que escreve um artigo sobre uma personagem-actriz, Birgitta. O filme começa, então, com a vida dessa actriz, cruzada por flash-backs, por reminiscências oníricas e psicanalíticas, pelo visionamento infantil da curta-metragem muda da Pathé («Devil’s Wanton») quando o casal Birgitta-Tomas se escondem no sótão. Os diversos níveis da história confrontam-se no tempo e na geografia. Agora está tudo dito, agora está tudo baralhado. Já não sabemos quantos andares tem a casa que aparece no nosso sonho. O espectador que resolva: «A Prisão» é uma tragédia sobre o ignóbil assassinato de um recém-nascido ou uma história ditada pela loucura de um professor de matemática que acha que tudo isto não passa de uma paródia que temos de viver, num arco que une os pontos mais próximos entre o nascimento e a morte. Estamos no plano da arte como laboratório social, como primado da estética. Neste filme, a beleza de cada imagem e de cada ideia transmite-nos a certeza de que o cinema é um dos fundamentos da humanidade. Estamos no ano de 1949.

jef, março de 2014

«A Prisão» (Fängelse) de Ingmar Bergman. Com Birger Malmsten, Doris Svedlund, Eva Henning, Hasse Ekman, Stig Olin, Irma Christensson, Anders Henrikson, Birgit Lindqvist. 1948, Suécia, P/B, 78 min.

Índia de papel













– Vamos lá a marchar! Para a frente é que é o caminho, rapidamente e em força! Porte atlético, cabeça erguida, peito para fora, barriga para dentro. Estandartes ao alto, a Nação no espírito! Agora, chegados à fronteira, não é possível hesitar. Recuar é a morte, a afronta, a desonra!
Costumava dizer-me ao pequeno-almoço, frente a uma boa fatia de pão de centeio barrada de banha e açúcar, o metal da caneca a transbordar de café negro a escaldar os dedos, o meu tio-avô, coronel quase general de uma Índia tomada por convalescença, bebedeiras e malária, guerras e epidemias, muito chá, sarapatel e vindalho. Um tom vermelho no hálito matinal, o fumo de um charuto vogando entre comissões de serviço na selva e histórias de nativas desaparecidas, porventura devoradas. Elefantes esforçados na rechega da madeira. Templos invadidos por botânicas esfaimadas a esconder falos amantes e donzelas por eles ansiosas. Um relance de cumplicidade máscula e sóbria no olhar que divagava sobre a linha do horizonte invisível e desgastado pelo suor, em contraluz. Bigodes fartos e grisalhos, calções de investida, pingalim e botas cardadas. Um tigre a vigiar sobre o ombro, sobranceiro e forte. Na sombra. Pronto a saltar, logo que o comando da metrópole o permitisse!
Era um tio-avô de nome Venâncio Anselmo de Matos Salomão Noronha de Albuquerque e Sá que, diga a verdade verdadinha, nunca cheguei a conhecer mais gordo!
Raios partam os livros! Malditas paisagens de papel!


jef, novembro 2016

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre o filme «Sono de Inverno» de Nuri Bilge Ceylan, 2014





















As cores do poder
Capadócia. Inverno. Isolamento. 
Quantas tonalidades estão contidas nas sombras de uma lareira acesa? Quantas cores comporta a luz branca refractada pelos cristais da neve? Os pintores sabem-no dizer. Mas quantas variações poderão reflectir a palavra «poder»? Humilhação, prepotência, condescendência, tirania, subjugação[…] Nuri Bilge Ceylan vai multiplicando o complexo espectro visual, dando à palavra modeladora da humanidade o pantone de um melodrama estético sobre a solidão. Um filme a ser escutado, no palco que ele é, ao som de Voltaire, Shakespeare, Dostoiévski, Schubert… Um filme a reler!

jef, janeiro 2015

«Sono de Inverno» (Kis Uykusu) de Nuri Bilge Ceylan. Com Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag, Ayberk Pekcan. Turquia, 2014, Cores, 196 min.

Sobre o livro «Animalescos» de Gonçalo M. Tavares, Relógio D’Água 2013














Ser vivo, ser animal, ser humano.
Imagine-se que as palavras sonham, melhor, que as palavras têm pesadelos, desses que associam sujeito, verbo, complementos directo e indirecto, num sistema lógico mas que nos conduzem a uma porta fechada, até à queda livre sem saída, ou ilógica.

Segundo o Dicionário / Catálogo do autor, “Animalescos” é o caderno n.º 32 e situa-se no sector intitulado «Canções». Os pontos finais praticamente não são utilizados, as maiúsculas diluem-se à extinção, a leitura surge corrida ligando imagens e acções, consequências e sintomas. Ideias. A palavra «Cristo» em destaque. Um código gramatical onde o espírito nasce do corpo e a máquina do animal, na intimidade de uma série de monólogos oníricos indexados a palavras-chave ou índices remissivos.

«raspo a madeira para perceber se este é um material sujeito a neuroses, como os humanos, se a madeira fica louca aos poucos, se apodrecer é isso ou apenas uma mudança fisiológica; a perda de força do material, interessa-me isto, perceber na madeira o que é a neurose e no homem o que é esse apodrecimento que é visível na madeira cheia de humidade e tempo;» pp. 33.

A Natureza como ponto de fuga ou estratégia de sobrevivência. O leitor que é, ao mesmo tempo, ser vivo, ser animal e ser humano, que decida.

jef, agosto 2014

domingo, 27 de novembro de 2016

sobre o disco «Gisela João» Valentim de Carvalho, 2013

















Elogio a Gisela João.
Será difícil que, com este disco, alguém que não goste de fado passe a gostar. Mais fácil será prever que o primeiro disco da fadista ditará mais algumas achas na grata discussão sobre a renovação, a origem e as consequências do fado e dos novos fadistas. Alguns medirão a cantora e tentarão colocá-la na escala absoluta de Richter, onde se perfilam, santificados, Alfredo Marceneiro, Amália, Beatriz da Conceição, Maria Teresa de Noronha, Carlos Paredes ou Carlos do Carmo (e onde aguardam beatificação Aldina Duarte, Manuela de Freitas ou Camané). Todos sabem que o fado nunca será ciência, será outra coisa muito pouco definida e que se deseja sempre diferente para podermos dizer que é sempre igual, como diria o príncipe de Lampeduza. 

A cantora sabe (sente) bem do facto e a primeira coisa que me surge ao ouvi-la é algo que se diz de Amália: «Ela até canta o fado!». Gisela João, numa fúria emotiva, ataca sem tréguas ou panaceias orquestrais, os fados tristes e menores, os alegres e maiores, os ‘renovados’ com letra de Ary dos Santos, os viras e malhões, o ‘não venhas tarde’, o ‘maldição’ ou a ´casa remax da mariquinhas’. De certo modo, o contralto quebrado da voz, a guitarra portuguesa de Ricardo Parreira e a viola de fado de Tiago Oliveira, piscam o olho (o ouvido) à essência da canção e cobrem-na de uma forte irreverência, agressiva, diria ‘punk’. Por mim, folgo em emocionar-me com um disco sobre o qual deram grande destaque na imprensa e ofereceram enorme expectativa. 

O fado é mesmo assim, tem de ser popular, tem de ser, de certo modo, emocionalmente erudito.

Serve ainda o presente para elogiar, igualmente, o grande fadista e produtor executivo do disco, Hélder Moutinho. A produção e direcção musical: Frederico Pereira.

jef, setembro 2013

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Sobre o filme «A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2» de Abdellatif Kechich, 2013













Onde jaz o sorriso de Adèle?

Já tínhamos compreendido com Pedro Costa («Onde Jaz o Teu Sorriso?» 2001), este através de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub («Sicilia!» 1999), que a beleza está, justamente, nesse fotograma perdido que revela (ou esconde) o trejeito de um sorriso. Parece-me que essa capacidade estética de sublinhar ou desvanecer a sombra de uma imagem é o verdadeiro sinal contido na arte maior. Expor a intimidade como arte (pública) sem que seja revelada, sem haver devassa, fazendo antes do espectador cúmplice e devedor de uma ideia, é ética que nem todos os realizadores se podem gabar. Tal como Pedro Costa, mestre superior nessa demanda («No Quarto da Vanda» 2000), Abdellatif Kechiche consegue filmar uma refeição familiar sem a exibir (e o que há de mais íntimo que um cuscuz de peixe partilhado por amigos em tarde de fim-de-semana? - «O Segredo de um Cuscuz» 2007). Filmar um sorriso, uma lágrima, um jantar de esparguete à bolonhesa, a sesta sonolenta de uma criança ou uma relação sexual, tornando o público “protector” desse fotograma encoberto, é coisa rara, coisa difícil para actores e para quem tem a câmara em acção. Também para quem o idealiza e lhe realiza a montagem. Abdellatif Kechiche é absolutamente rigoroso na escolha ética do fotograma a esconder. Também as actrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux são absolutamente intransigentes na assunção da partilha dessa beleza oculta.
jef, dezembro 2013

«A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2» (La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2) de Abdellatif Kechich. Com Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Benjamin Siksou, Mona Walravens. França, 2013, Cores, 177 min.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sobre o disco «God Don’t Never Change – The Songs of Blind Willie Johnson», Vários Artistas. Produção de Jeffrey Gaskill. Alligator Records, 2016










Blues. Blues. Blues. Soul. Soul. Soul. Gospel. Gospel. Gospel.
Texas, de Marlin a Beaumont.
Janeiro de 1987 a Setembro de 1945. 48 anos na América do Norte. Negra, profunda e bela. Injusta também.
Jesus Cristo na Terra. Depressão nas alturas. Slide-guitar no colo. E mais quanta alma exista!
Tom Waits («The Soul of a Man» & «John The Revelator») como nós o ouvimos desde «Swordfishtrombones» (1983), a era Island Records.
Lucinda Williams, Cowboys ‘Margo Timmins’ Junkies, Sinead O’Connor, Maria McKee, Rickie Lee Jones. As belas, as mais belas!
Ainda, Derek Trucks & Susan Tedeschi, Blind Boys of Alabama, Luther Dickinson & the Rising Star Fife & Drum Band.
«It’s Nobody’s Fault But Mine».
«Jesus is Coming Soon».
«Mother’s Children Have a Hard Time».
«Let Your Light Shine on Me».
A maravilha de uma América do Norte que será sempre nossa, apesar da ignomínia, do racismo e da segregação. Apesar do Trump.
O milagre sobre a Terra pode existir, sim, mas está apenas nas mãos dos homens.
Também na sua música!

jef, novembro 2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Sobre o filme «Tesouro» de Corneliu Porumboiu, 2015















Gosto do cinema romeno.
Gosto do modo como Corneliu Porumboiu dá o dito pelo não dito, troca o fio à história, deixa-nos na corda bamba, de cara à banda, entre a tragédia anunciada pelo neo-neo-realismo e o humor mais dramático que, em cinema, é o mais realista.
Assim foi «12:08 a Este de Bucareste» (2006). Terá sido um pouco menos em «Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolism» (2013).
Aqui, a fábula é mesmo desconcertante e tem a ver com o Sherife de Nottingham, Little John e Lady Marian. Todos conhecem a história mas neste caso diz respeito a vizinhos e dinheiro contado.
Uma família perfeita, um tesouro escondido, um detector de metais que anda como caracol sobre um quintal sem graça e vai apitando. Aqui e ali. Também tem polícias e ladrão.
Uma diversão sobre a falta de dinheiro e o desejo eterno que o metal sonante provoca. Tudo medido pela visão inocente e justa do pequeno Alin, em interpretação terna de Nicodim Toma.
Não esquecer, por fim e enquanto corre o genérico, de ouvir a versão soft-metal de «Life is Life» dos já enterrados e esquecidos Opus.

jef, novembro 2016

Porumboiu, Corneliu “Tesouro” (Comoara). Toma Cuzin, Adrian Purcarescu, Corneliu Cozmei, Nicodim Toma. Roménia / França, 2015, Cores, 89 min.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sobre o filme «Dois Dias, Uma Noite» de Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2014


















O fio instável da resistência.
Se existe alguma função para um filme é fazer luz sobre o fio, desequilibrado e fundamental, da resistência. A vida por um fio e, mesmo assim, levá-la para a frente. O fio da ética sobre as forças cegas do trabalho que aniquila a razão que alimenta os sentimentos que lançam o prumo da existência. Satyajit Ray em «A Grande Cidade» (1968) colocava o poder do querer e do sentir sobre a tirania e o desespero, sobre toda a inconsciência. Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne prosseguem o corolário, demonstrando que a carnificina colectiva só pode ser vencida pela tenacidade individual. Sandra (Marion Cotillard) e Manu (Fabrizio Rongione) vão, durante um fim-de-semana, desfiando de porta em porta uma litania cujo corpo está centrado no manipulador Jean-Marc (uma personagem quase em ausência de cena, com o eterno Olivier Gourmet a dar-lhe a fugaz presença final). «A Grande Cidade» (1968) e «Dois Dias, Uma Noite» (2014) levam-nos à conclusão de que a História dos sem História é feita de individual resistência. Nesse pacto de consciência reside a estética do cinema. A sua própria resistência.

jef, novembro 2014

«Dois Dias, Uma Noite» (Deux jours, une nuit) de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Marion Cotillard, Olivier Gourmet, Fabrizio Rongione, Pili Groyne. 2014, Bélgica / Itália / França, Cores, 95 min.

Sobre o livro «Última Paragem, Massamá» de Pedro Vieira, Quetzal 2011


















Dos vírus, dos sinais e do movimento pelas linhas de Lisboa.
A Linha de Sintra e o IC19 dizem mais de Lisboa que grande parte das descrições feitas nos guias turísticos do Centro da Capital, porque, para muitos, a capital é mesmo Capital mas anda despovoada, desguarnecida, desvairada, dedicada a empregados sem contrato ou a desempregados em busca de serem contratados. Assim fala Pedro Vieira em «Última Paragem, Massamá» enquanto narra a história de Vanessa que conhece Lucas no Centro de Emprego e Formação Profissional; de Lucas que conhece João ao balcão de uma dependência bancária; de João que conhece Vanessa à porta da enfermaria para infecto-contagiosos onde Lucas está internado, a contas com o vírus, o remorso e a memória. Aqui nada revelo pois tudo é esclarecido na segunda página do romance. Esta é a história de Edson, Luana e Patrícia que também fazem na Linha de Sintra as suas viagens de vai-e-vem, entre noites mal dormidas e dias mal vividos. Esta é a história da traição sofrida por Públio Quintílio Varo às mãos dos aliados germânicos, na batalha da Floresta de Teutoburgo, 9 d.C.; a história de Augusto e de um Império que estremece. A história de uma cidade que será sempre Capital até ao último suicídio.

jef, janeiro 2014

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Sobre o disco «Nua» de Gisela João, Valentim de Carvalho 2016
















A imagem de felicidade não se ajusta ao fadista. O fado é o trauma português, a lamúria de quem vive entre o enorme espaço atlântico e a longa dinastia dos Filipes. Uma imagem bem envernizada para vender a alma pessoana e as sardinhas aos milhares de turistas que se aglomeram, hoje, no cais das duas colunas.

Contudo, Fernando Pessoa e as sardinhas não são objectos tristes só porque usam óculos, chapéu e bigodinho ou escamas soltas sobre as brasas. São simplesmente símbolos profundos que contêm muito mais do que melancolia e espinhas finas.
Também os fadistas não são depressivos. Cantam o que lhes vai na alma e isso alegra-os e alegra-nos.

Amália era alegre, cantava o que lhe apetecia. Marchas e modas populares, zarzulelas, bossas novas, hollywoodes. Por vezes, fado. E não fazia trinados «de la soul». Nunca levantava a voz, só a alma. Nada de berros. Aquela voz apenas lhe seguia a intuição de génio que, algumas vezes, a entristecia.

Gisela João é deste mesmo mundo. Uma cantora alegre, acompanhada por músicos simples e poucos. Maravilhosos! Ricardo Parreira na guitarra portuguesa, Nelson Aleixo na viola de fado, Francisco Gaspar na viola baixo. Canta Alain Oulman e Alexandre O’Neil, também Pedro Homem de Melo, David Mourão-Ferreira e Cartola. Canta Carlos Paião, Capicua. E uma «Llorona» que comoveria Chavela Vargas.

Gisela João canta o que lhe apetece como Amália, e até pode chamar «Nua» a um álbum sem parecer “assim, tipo coisa e tal”. «Nua» é um disco mesmo muito bom!

E por fim, fica dito que gosto muito de ver a Baixa a abarrotar de turistas, nariz no ar, a produzir “selfies” tolas. São felizes e vêem Lisboa talvez como os lisboetas não vêem. Talvez estes devessem aprender com eles e sentirem-se muito contentes por ouvir a alegria que vai na alma desta extraordinária e feliz cantora, Gisela João. Que também fadista!


jef, novembro 2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sobre o livro «Índice Médio de Felicidade» de David Machado, Dom Quixote, 2013












Este livro sugere ter sido escrito para crianças. Crianças que são adultos e contam histórias e aventuras e viagens de adultos que parecem crianças. Quem o comece a ler, prepare-se, não vai parar até conhecer-lhe o final. Imagine-se uma carrinha de nove lugares, com acelerador e sem travão, que rola encosta acima, em movimento uniformemente acelerado. Claro, a força da gravidade é negativa, como negativos são os sinais do nosso tempo, da infeliz economia do desemprego, das casas devolvidas aos bancos por dação, de gerações de idade amputada, da sociologia avantajada, pronta a ser integrada num futuro por garantir. Mas Daniel tem de resistir, não pela sua própria solidão, mas por solidariedade com a família, com os amigos… Afinal, talvez haja solução! A felicidade ainda pode ser equacionada, relativizada, ponderada, numa função de grau elevado, tendo x, y, z por variáveis que, em absoluto, possuem o mesmo valor tanto para os adultos como para as crianças. Ou seja, a hipótese de felicidade quando nasce é para todos.
Valha-nos a esperança (que Xavier e Doroteia Marques recusam)!
Valha-nos o desejo (de que Mateus se quer alhear)!
Sentir ou entender a felicidade podem ser assuntos distintos, mas uma coisa é certa: é impossível viver sem os outros.

jef, outubro 2013

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Biografia








Caríssimo amigo,
por respeito a quem passa
(cheio de pressa e afazeres inauditos)
resumirei a minha vida a cinco / seis episódios:

(a) o meu nome
(b) a primeira queda
(c) o segundo ou terceiro encontro marcado
(d) um cheiro fresco na rua
(e) a vaga atmosfera a flores
(f) um novo dono para o gato.

Resumo também para não me enfastiar.
Sabe, o passado, 
o passado segue-me, tolhe-me o passo,
surpreende por demasia.
Um bom amigo sim, traz uma lembrança por outra,
mas faz-me tropeçar,
faz-se trôpego,
anda sempre a ficar para trás
e eu a recuar para o ir ajudar.
Amigo, já lhe contei a minha vida.
Agora, por favor,
vá-se embora!

jef, novembro 2016


Sobre a leitura de «Que Importa a Fúria do Mar» de Ana Margarida de Carvalho, Teorema, 2013














Ao ler «Que Importa a Fúria do Mar» verificamos que, com o passar das páginas, somos pescados para dentro do romance, seguindo a linha da história, iscados pela minúcia de milhares de objectos. O Mar, esse, é o mesmo oceano que banha a Marinha Grande (18 de Janeiro de 1934), Vila Praia de Âncora, o Porto e o Tarrafal, não o dos «resorts» mas o da «frigideira». O barco é o «Luanda». O peixe é arraia-miúda. Ou talvez não. Neste livro, percebemos onde, dentro de nós, se finca o anzol que é o gosto pela leitura. Ficamos também a saber que é no detalhe que reside a literatura. Tal como a conversa. E esta, tal como a literatura, é feita de cerejas. Qualquer coisa que deleita, entretém e entretece os fios do conhecimento / curiosidade. Como uma pinça ou agulha que vai buscando e cerzindo as memórias, as mnemónicas, os silogismos, na teia do desconhecido. Resumindo, Ana Margarida de Carvalho é uma contadora de histórias, ideias e imagens, em linha com José Saramago ou Rui Cardoso Martins – o humor e a tragédia, o amor e a fúria, o microscópio e a luneta astronómica. Tudo no mesmo plano. Tudo com barcos, aventura e muitos bichos. Leitura perfeita.

jef, junho 2013

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Género à parte











Questão de género.

Pergunta o cavalo-marinho à sardinha:
– Por que razão ninguém chama
à cavala
«égua-do-mar»?

jef, novembro 2016


(Hippocampus erectus / Scomber scombrus)

Sobre o livro «Se fosse fácil era para os outros» de Rui Cardoso Martins, Dom Quixote 2012












A viagem continua… com crédito em cartão. 
Uma viagem sem retorno, um cartão sem direito a estorno, pois é vingado. Uma viagem sem exterior porque realizada ao interior de um território a que costumamos chamar «América», a Grande. E é interior porque estamos a viajar pela sua paisagem, construção de Rui Cardoso Martins (e nossa) sobre o seu corpo, imagem amada, que cada um transporta dentro de si. De Nova Iorque, da tragédia e da cerveja irlandesa, até Nova Orleães, das grandes barreiras aquáticas e dos lagostins da Louisiana. Escravos negros, índios em reserva, cowboys e canyons, Las Vegas e Monument Valley. 
E todos sabemos como são belas as viagens, mas não são fáceis!
Rui Cardoso Martins retoma o caminho pelo mundo das histórias, de muitas histórias diferentes. No entanto, a viagem é a mesma, e o crédito está garantido. Cláusula única no contrato, em letra maior: ninguém pode fazer «aquela» pergunta, ninguém pode olhar para Eurídice.
Dizem que John Ford, um dos mais geniais e prolíferos realizadores de sempre, passou a vida e realizar o mesmo filme, a mesma paisagem, o mesmo herói. Basta lembrar o céu e as nuvens em «Forte Apache» (1948), ou a turbulência étnica em «A desaparecida» (1956).
Como nos cromos, Rui Cardoso Martins vai completando a nossa caderneta de imagens, fixando a melhor memória.


E no fim fica a ressoar a maldição (ou constatação) de António Vieira: «Pelo que fizeram, se hão-de muitos condenar. Pelo que não fizeram, todos.»


jef, maio 2013