sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Sobre o disco «Tropix» de Céu, Urban Jungle / Som Livre 2016
















«Sou astronauta do amor. Engenheira de ilusões. Poeta da dor e da paz. Capaz de tomar um chá com cometas e mel!» (Minhas Bics)

Eis um disco da melhor música electrónica.
É um disco pop. Pop a sério.
Sem rodeios ou complexos.
Sem remorsos da história de 50 anos da electrónica germânica.
Sem prejuízo da Brit-Pop e de décadas de cançonetismo euro-televisivo. Dos antigos. Com Simone de Oliveira, Madalena Iglesias, Abba ou Sandie Shaw.
Sem nunca virar as costas ao samba, à bossa nova. Que estes trazem séculos de existência nos genes. 

Tropicalismo. Tribalistas.

[Noite.] Sem fechar os olhos e os ouvidos às pistas de dança, das mais íntimas, luz negra e uma bola de espelho a confundir o tecto e os toques.
[Manhã.] Canções de trazer por casa. Manhãs claras, caneca de chá na mão, a porta do quarto entreaberta.
[Tarde.] O calor a abrir as últimas flores em botão. O gim tónico a molhar em círculo o parapeito ao pôr-do-sol.
Malu Magalhães. Brian Eno. David Byrne. Jon Hassell. Tom Zé. Carlinhos Brown. Marisa Monte. Arnaldo Antunes. Caetano Veloso. Um cheiro a Jay-Jay Johanson. Um ligeiro sopro de Pascal Comelade…
Absolutamente dançável. Perpetuamente estético.
Verdadeiramente amoroso.
Pop. Pop. Eternamente Pop.


jef, setembro 2016

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Sobre o filme «Taxi Driver» de Martin Scorsese, 1976















O super-herói americano, afinal, também sofre de insónias…
Também ele tem direito às suas «idiossincrasias», como se usa agora dizer. Às suas ligeiras perturbações, ao desespero e às desilusões. Às paranóias, ao seu Vietnam. Às suas pilulas.
Travis Bickle tem direito às armas compradas no quarto de alguma espelunca. À solidão do seu «daesh» interior. À escrita do seu diário.
A um Robert de Niro esplendoroso.
A um Martin Scorsese que tão bem filma a violência carismática e o sangue explícito.
Também ao esplendor de Cybill Shepherd, Jodie Foster e Harvey Keitel.
E que nos fique ainda o direito e o prazer da banda sonora de Bernard Herrmann. (Sim, esse, o das bandas sonoras de Hitchcock.)
Todos nós temos direito a um filme como este, àquele «happy end». A um filme que visita todos os temas de ontem e de hoje, dos filmes de polícias e ladrões, de piratas e bandidos, de drogados, chulos, prostitutas e candidatos à Presidência...
Viva a «nouvelle vague» americana!

jef, setembro 2016


«Taxi Driver»  de Martin Scorsese. Com Albert Brooks, Jodie Foster, Robert De Niro, Cybill Shepherd, Harvey Keitel, Martin Scorsese. EUA, 1976, Cores, 113 min.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Sobre o filme «Se as Montanhas se Afastam» de Jia Zhang-ke, 2015
















Tenho dificuldade em compreender o último filme de Jia Zhang-ke sem que a minha memória não regresse ao disco de capa de plástico cor-de-laranja que os Pet Shop Boys editaram em 1993. «Very». No final trazia um dos maiores ícones na banda britânica. «Go West». Por acaso, canção roubada aos Village People, lançada em 1979, lá pelo Oeste Selvagem.
Nessa altura, por ironia, o longo videoclip dos Pet Shop Boys devolvia a iconografia criada por uma certa revolução vermelha acontecida mais a Este.

Enfim, um anacronismo que me levou a reflectir nessa particular forma de Jia Zhang-ke filmar a difícil arte do trabalho, do amor e dos imensos territórios.

Já nos magníficos «Still Life – Natureza Morta» (2006) e «24 City» (2008), a luta pelo sustento e pela família caracterizou um novo rumo «modernista» e de «dessintonia» do cinema social. Os tempos não correspondem à nossa vontade mas sim à agressiva realidade das migrações humanas.

Assim também é no belíssimo e perturbado melodrama «Se as Montanhas se Afastam». O tempo afasta-se como as placas na tectónica, perdido nos vastos continentes, dessincronizado dos afectos, levados pela necessidade do trabalho e pelos comboios. Sincronizado no desejo de «Go West». 

1999. 2014. 2025. São estes os tempos do filme.

Magnífica é a figura central, Shen Tao, o centro da «estabilidade» de um certo triângulo, interpretada por Tao Zhao.

Jia Zhang-ke, um realizador cá dos meus.

jef, setembro 2016

«Se as Montanhas se Afastam» de Jia Zhang-ke (Shan he gu ren). Com Tao Zhao, Yi Zhang, Jing Dong Liang, Sylvia Chang, Zijian Dong. China / França, 2015, Cores, 131 min.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Noite Americana










As sentenças firmadas a marca de água
são carimbos submersos,
presas fáceis,
dentes ágeis,
dóceis véus.
Prefiro a sombra. Não me culpa. É real e só depende dos meus passos
quando o Sol se deita
ou a noite americana se levanta,
feéricos holofotes a proteger a luz crua
e a chuva luminosa a fingir tristeza.
Quando nos grita aos ouvidos:
«O dia não traz remetente!»

jef, setembro 2016

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Sobre o filme «Julieta» de Pedro Almodóvar, 2016














«Um Estudo em Vermelho», diria Sir Arthur Conan Doyle.

Afinal, não serei eu apenas a filmar as mulheres, diria George Cukor.

Pelos vistos, ainda há quem pense o melodrama como superior arte cinematográfica, diria Douglas Sirk.

…E componha a cena com a pintura e a escultura reais, como fazia Pier Paolo Pasolini.

…E as cores primárias, e as compostas, e as outras, e os objectos, e o papel de parede, e o guarda-roupa, como arquitectava Alfred Hitchcock e ainda arquitecta Woody Allen.

...E a banda sonora de Alberto Iglesias.

...E os belos rostos femininos enquadrados sem passepartout.

...E a sala de cinema cheia, a horas inconvenientes.

Que bela tarde de cinema!

jef, setembro 2016

«Julieta» de Pedro Almodóvar. Com Adriana Ugarte, Emma Suárez, Michelle Jenner, Darío Grandinetti, Rossy de Palma e Pilar Castro. Espanha, 2016, Cores, 99 min.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A borboleta e o tsunami










É de injustiça extrema associar a tormenta geológica ao bater das asas de uma borboleta.
Longínquo.
É injusto para o furacão, claro. Também para a meteorologia ventosa que arrasa palmeiras, turistas e hospitais. A borboleta sabe o que faz.
E fá-lo na consciência da perfeição. Na consciência de um coração.
No olhar que o perturba sem agitar as folhas do salgueiro aquoso. Na instável ventania da separação que nem enruga a superfície do mar chão. Na altercação alegre quando a vista avista pelo horizonte do cais.
O faroleiro faz sudokus enquanto aguarda a mudança de turno.
Posídon adormece enquanto aguarda o boletim meteorológico.
E o tal coração em roda livre nas asas de um lepidóptero.
Ali tão perto.

jef, setembro 2016

(já agora o animal ali em cima dá pelo discreto nome de Papilio machaon)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sobre o disco «Secular Hymns» de Madeleine Peyroux, Impulse! / Universal 2016













Passam 20 anos de um dos meus discos predilectos: «Dreamland»! Eis «Secular Hymns», o sétimo álbum de originais de Madeleine Peyroux!
Volta ela de voz mais modelar, mais doce, mais redonda, talvez mais grave, mais terna no vibrato, no pianissimo. Caramba! Agora, mais ninguém lhe poderá chamar a Billie Holiday do Canadá. Ponto final.
Não sei como, Madeleine Peyroux dá a volta ao mundo, o jazz, o blues, o gospel, o funk, a soul, o reggae, a folk, e regressa ao seu carinhoso universo particular (como diria Marisa Monte).
Produz o próprio disco, grava-o ao vivo numa pequena igreja perdida na Inglaterra rural, à antiga. Dá-lhe toda a intensidade acústica desse espaço, desses espectadores. Mas retira-lhes o som das palmas. Um facto que ainda o torna mais íntimo, mais teatral. O eco a vibrar no tecto altivo é a única prova, a sua doçura.
Porque este é um falso «acústico». (Vá lá saber porque chamam isso a certas gravações… Não será até o silêncio «acústico», segundo as leis que aprendi nos livros de Física?) Aqui apenas o seu trio: John Herington na guitarra eléctrica e Barak Mori no contrabaixo baixo, upright ou double bass, como lhe chamam…
Mas também John Herington e Barak Mori cantam e fazem o coro à linha vocal da cantora. E Madeleine Peyroux acompanha-os com a guitarra acústica e o «guilele». Só a percussão das cordas e a respectiva ressonância. Digamos que em certas alturas soa a «country a capella» ou «folk de câmara»...
E para meu supremo deleite ainda aqui venho encontrar «Tango Till They’re Sore» vindo do maravilhoso «Rain Dogs» (Island, 1985) do maravilhoso Tom Waits.

Porque todos os hinos seculares só podem ser hinos populares. Porque são símbolos da alegria e da espiritualidade que deveria assistir a toda humanidade.


jef, setembro 2016

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Sobre o filme, «Cartas da Guerra» de Ivo M. Ferreira, 2016






















«Gosto tudo de ti»,
ressoa pelo filme nas palavras eternamente repetidas por António a Maria José, num jogo de planos, redes, perspectivas, dúvidas, inseguranças. Paixão.
As palavras, as mais belas palavras, são do escritor António Lobo Antunes a sua mulher e sua filha, vindas de Angola em guerra, no início dos anos 70. Escritas, lidas e publicadas. É a realidade das palavras que é exposta. Puras e simples como a verdade do tormento da guerra colonial e da paixão assolapada.
Mas a voz ouvida não é de quem as escreve, António (Miguel Nunes), mas de quem as lê, Maria José (Margarida Vila-Nova). Uma voz feminina que se exprime por cima da guerra de homens, ensanguentada e suada. Por vezes uma voz confundida pelos extraordinários trechos musicais de Luís de Freitas Branco, Fernando Lopes-Graça ou Ligeti. Por vezes, assustada pela imagem maravilhosamente captada por João Ribeiro. Por vezes, toldada pelo olhar esplêndido de Miguel Nunes.
Em que plano, rede, perspectiva, então me devo situar?
As palavras que são únicas; o olhar claro como água; as nuvens, a água e os elefantes, que a fotografia a preto e branco exalta; a belíssima música que interpreta a guerra; podem não atingir um foco único… 
Ou estarei a sentir mal um excelente filme?
Ou, na verdade, o tempo de África não coincide com a Guerra, em tempo?

jef, setembro 2016


«Cartas da Guerra» de Ivo M. Ferreira. Com Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, João Pedro Vaz, Isac Graça, Francisco Hestnes Ferreira, Cândido Ferreira, Maria João Abreu. Portugal, 2016, Cores, 105 min.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Sobre o filme «E Agora? Lembra-me» de Joaquim Pinto, 2013














A botânica do vírus ou o erro na programação.
Este é um complexo tratado sobre a botânica dos vírus (VIH + VHC) ou um compêndio longo e anacrónico de entomologia e do querer humano. E desengane-se quem, por pressa mediática, vá à procura da morbidez das células ou da finitude do corpo. Aqui, a doença é o móbil e a palavra do evangelho de João, uma espécie de lança. Também há cães, fogos florestais, análises clínicas e, por superior humor, a morte anunciada dos perus. Entretanto, durante a sessão, alguns filmes vão-se aproximando, depois afastam-se. Afasta-se “Silverlake Life: The View from Here” (Peter Friedman e Tom Joslin, 1993) pelos planos próximos com que o presente filma a vida dos outros, incluindo a de libélulas e rãs. Aproxima-se de “Ruínas” (Manuel Mozos, 2010) na perspectiva com que olha o presente como o grande transfigurador de memórias. Vem à liça “Ao Correr do Tempo” (Wim Wenders, 1976), essa viagem inicial, mas sem fim, de dois homens pela fronteira de países, entre a força dos silêncios e das palavras.
Este é um filme sobre a esperança (ainda). A esperança de “Blade Runner” (Ridley Scott, 1982) quando, no final, a andróide Rachael descobre que, por erro de computador, já ultrapassara o limite vital programado, atirando para o futuro a incerteza do seu prazo de validade. Aliás como acontece com Joaquim e Nuno. Aliás como sucede com todos nós.
Poder-se-ia chamar o filme de «absurdo» por observar de tão próximo a morte e o corpo só para expressar o plano mais distante em que se movem a Vida e a Natureza. No entanto, quando o «absurdo» toma consciência do próprio «absurdo», deixa de o ser. Aqui, o absurdo poder-se-á apelidar de «estética do movimento e da luz».

jef, setembro 2014

«E Agora? Lembra-me» de Joaquim Pinto. Com Joaquim, Nuno, Jo, Deolinda, Cláudia, Nelson, Rita. Cores, 164 min. Portugal, 2013

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

sobre o filme «O Gosto do Saké» de Yasujiro Ozu, 1962














Depois de ver «O Gosto do Saké» de Yasujiro Ozu, 1962.

Será um facto menos anacrónico do que despropositado, mas a realidade é que, ao sair do cinema, recordei «O Meu Tio» (1958) e «Playtime» (1967) de Jacques Tati. Talvez pelo rigor da arquitectura, das portas e das mesas, das taças de saké, dos electrodomésticos, das chaminés, dos reclames luminosos. Talvez pela banda sonora em tons de valsa, desanuviando pelo som a espessura da sequência e a austeridade dos planos. Talvez pela silenciosa e cândida ironia com que as personagens são caracterizadas, sempre sentadas, sempre a beber, quase sempre sorrindo. Talvez pela ternura que envolve de modo infalível o isolamento do protagonista. Sem dúvida pela inevitável nostalgia que, no final do filme, invade a tela, tristeza sentida, quando Shuhei Hirayama (Chishu Ryu), após casar a filha, verifica que o Tempo afinal não parou de correr e deixou a vida lá para trás. A modernidade sabe sobrepor-se à pontualidade de um relógio que está a ficar sem corda, mas não compensa a guerra, a perda, o erro, o remorso…
Afinal, quando o filme termina e saio do cinema, verifico que a vida não chegou a ser interrompida.

jef, setembro 2013

«O Gosto do Saké» (Sanma No Aji) de Yasujiro Ozu. Com Chishû Ryû, Shima Iwashita, Keiji Sada, Mariko Okada, Teruo Yoshida, Noriko Maki. Japão, 1962, Cores, 112 min.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Juvita Maria nasceu tarde








Juvita Maria nasceu tarde.
Fora de horas, noite dentro. O pai desesperava, a mãe mais ainda, os rins a doer, as dilatações a contrair, as horas lentas a passar, os médicos ora impacientes ora distraídos, as enfermeiras cansadas.
Juvita Maria lá nasceu, lá foi crescendo, lá foi vivendo, com alegria. A mãe de um lado, o pai do outro, os avós por cima e por baixo. Sem irmãos. Uma chegava e sobrava.
Nunca ela se toldou pelo pormenor do carinho, cercada de exageros afectuosos, de protecções cuidadas pela aflição. Apenas pressentia que nascer custava e, por isso, vivia com atenção. Não era mimada. Não fazia birras.
Gostava muito da atenção dos outros.
Gostava dos beijos que os outros lhe davam, do sorriso da família, das festas no cabelo que os vizinhos lhe faziam. Das idas ao hospital iluminado e a cheirar a lavado. Ali, ia brincando em vez de esperar. Tarde fora, fora de horas. Sem saber bem, muito se entretinha a observar os outros que se entretinham a observá-la.
Entre brincadeiras, aprendeu, por fim, o jogo das cores e dos nomes respectivos. Plasticina.
Gostava muito de plasticina. Tanto, que os outros se habituaram a dar-lhe plasticina.
Gostava de repetir o que via na matéria colorida. Com nomes já. Repetia e aprendia. Tinha jeito para aquilo. Repetia cães com trela e árvores de fruto, a mãe, o pai, o médico. Repetia os outros pelas cores da plasticina. Pelos nomes respectivos. Gostava de os outros gostarem das formas que repetia e que a mãe guardava com cuidado.
Juvita Maria entretinha-se a ver a cara dos outros a olhar os nomes coloridos quando a mãe ou o pai os levavam para espantarem o médico.
Mas sabia que, com o calor das mãos ou do Verão, as cores desapareciam. Ou melhor, transformavam-se em vez de desaparecerem. O calor fazia moldar as cores e amolecer as formas. Mas Juvita Maria não se entristecia. Mais cores novas apareceriam enquanto o calor do Verão não passava. E novas plasticinas chegavam no aniversário seguinte.
Era só esperar um pouco e continuar a brincar.
Melhor ainda era repetir a forma dos nomes sob o olhar dos outros. Com o correr do tempo. Ocre. Magenta. Anil. Violeta. Sépia. Terra de Siena queimada. Carmim. O preto que nunca o é. O branco que tudo junta. O verde que é azul e amarelo.
Cores nas palavras. Todos compreendiam o que elas significavam. Como todos falavam. Apenas não compreendiam que o tempo assim corria.

Um dia, Juvita Maria parou de misturar as palavras mas permaneceu agarrada à caixa de plasticinas por abrir. Sorria ligeiramente com a alegria de quem repetia o gato que todos os dias espreitava pela janela. Afinal era uma gata e tinha três cores. Branco, cor de laranja, cor de burro quando foge.
A gata voltou. Todos vieram dar-lhe uma festa nos cabelos. O médico também. Tentaram sorrir.
Juvita Maria morreu cedo. Era manhã dentro, finda nas horas.


jef, setembro 2016

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sobre o livro de «40 Histórias» de Donald Barthelme, Antígona 2013














Autor revolta-se
contra o estatuto do leitor. Como é óbvio, o autor pretende que os leitores abusem da capacidade, por hipótese ilimitada, que têm para interpretarem a realidade através dos textos que lhes estão pela frente. Por essa razão, Donald Barthelme (1931-1989) abusa da capacidade que possui para narrar situações que colocam o tal leitor sob a explicação do próprio coração, da própria pele. Parece estar a solicitar ao leitor: «explica-me agora a tua cabeça, as tuas mãos». O leitor fica sozinho a ouvir-se

(na página 193) «, e eis que Ludwig cai através da Villa Tugendhat e mergulha na história dos artefactos humanos; uma desilusão, sem dúvida, mas recorda-nos que a frase em si é um artefacto humano, não aquele que desejámos, é claro, mas, ainda assim, uma construção humana, uma estrutura que devemos acarinhar devido à sua fraqueza, por oposição à solidez das pedras»

E se eu falar em Boris Vian («O Arranca Corações») ou Flann O´Brien («Uma Caneca de Tinta Irlandesa») não estarei a comparar mas a reduzir o mundo sem fim destas histórias para pessoas em estado de agitação semântica. Barthelme não é paternalista, nem pedagogo, nem sério, nem irónico, é um escritor que pretende muito mais da leitura da América e do Mundo. (E, caramba, que não lhe chamem «surrealista»!)

[A tradução aqui é tarefa árdua e está muito bem entregue a Paulo Faria. Caso se pretenda melhor publicidade, leia-se o artigo que Pedro Mexia publicou no Expresso, por altura da edição deste livro.]

Um ano depois, a Antígona Refractária edita do autor «60 Histórias». Ainda não li.


jef, setembro 2014

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sobre o livro «Ronda das Mil Belas em Frol» de Mário de Carvalho, Porto Editora 2016.














Romantismo? Deixemo-nos de falácias e mal-entendidos…
«Recuso-me a associar romantismo a violinos, varandins e álcoois espirituosos, em fundo de lua. Para mim, é aquilo que me ensinaram na escola: arroubos de sentimento e atitudes, palavreado altissonante, espadeiradas, mortes prematuras, suspiros enlanguescidos, exaltações nacionalistas e ruínas fabricadas. Cumpriu, passou, vislumbra-se a acenar de lá, entre despojos da História, vai-se buscar quando for necessário. Mas não faz nenhuma falta num prélio deleitado de corpos.»

O mote está dado!
O corpo de um homem ao encontro (ou desencontro) do corpo de uma mulher. Só isso. Não é coisa para a qual devesse contar o cenário, ou o romantismo, que ficaria para mais tarde, na Poética, segundo o velho Aristóteles.
Mas, afinal, sempre haverá mais.

«Em alturas destas, emerge algures, no cérebro masculino, o repisar de certa incomodidade recôndita: a da absoluta irrelevância da sua presença. Certo que o corpo está lá, cumprindo mal ou bem, a obrigação que lhe cabe, com mais ou menos denodo, mas é um pouco como o tipo que levanta e baixa as bandeiras nas corridas. O tumulto, o que verdadeiramente treme e ruge, não parte dele.»

São 16 histórias (com algumas mais mulheres «em flor»), digamos crónicas de sexo anunciado – e um epílogo circunstanciado –, que medem o correr dos dias de um homem com família, modos e medos normais. Um homem com desejos e consciência. Um homem que pratica porque a vida não é só teoria. Porque um homem também é «fisionomia».

«O prazer que se tem está, sobretudo, no prazer que se dá.»

(Por estas e por outras, Mário de Carvalho continua a ser um dos meus mais dilectos escritores. E que fique ele sabendo o prazer tanto que me dá em ler as suas linhas. Sinceramente, espero que tanto prazer tenha sofrido em as escrever…)

jef, setembro 2016

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Sobre o filme «Uma Diva Fora de Tom» (Florence Foster Jenkins) de Stephen Frears, 2016



















Pode não ser o melhor filme actualmente em exibição, mas que o mestre Stephen Frears («A Minha Bela Lavandaria» 1985, «Ligações Perigosas» 1988, «Anatomia de Um Golpe» 1990, «Estranhos de Passagem» 2002, «A Rainha» 2006)  resolve a coisa na perfeição, lá isso resolve!

Podia até ser o filme musical mais dissonante de sempre (não fosse a banda sonora de Alexandre Desplat), mas a diva Meryl Streep, sempre atraída por musicais («Prairie Home Companion» 2006, «Mamma Mia!» 2008, «Ricki and the Flash – de Volta a Casa», 2015), tudo interpreta com a maior distinção.

Stephen Frears entrega-lhe fielmente a difícil tarefa do burlesco e da desafinação luxuriante. Ela deve cantar mesmo muito mal (e todos sabemos como a actriz canta afinado) e produzir o melhor palhaço. E nesse papel Meryl Streep é, sem qualquer dúvida, única!

O realizador deixa, depois, a Hugh Grant (St. Clair Bayfield, o marido e primeiro facilitador) e Simon Helberg (Cosmé McMoon, o pianista e segundo facilitador) o papel de transmitir ao mundo musical abstracto de Florence Foster Jenkins a necessária boa disposição emocional. E  eles também se saem bastante bem.

Sem falar da fotografia, do guarda-roupa, dos décors das salas de espectáculo e restaurantes, dos carros, dos acessórios, das cores de um mundo que de comédia «gargalhosa» vai sendo transformado em tragédia contemplativa.

(E nas mais belas imagens do rosto desfalecido sobre a almofada de Florence, de crânio coberto pelo turbante, não pude deixar de recordar a famosa pintura de Jean Louis David «A Morte de Marat» 1793.)

jef, agosto 2016


«Uma Diva Fora de Tom» (Florence Foster Jenkins) de Stephen Frears. Com Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, John Kavanagh, Rebecca Ferguson e Nina Arianda.  Grã-Bretanha, 2016, Cores, 110 min.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Carta a uma pedra singular












Caríssima,
saberás que a medida da tua singularidade, corrijo, da tua suavidade, está na estrutura da superfície que te contém? Lisa e quente quando o Sol a toca, esmorecendo em gradiente ligeiro quando o dia desce e a água que passa lhe vai bebendo o calor em cedências breves e oscilações, na perspectiva das algas, da barbatana ardente do escalo, da aresta doce do quartzito.

O que te reveste pode serenar pela noite, esfriar até por trocas de temperatura com as estrelas, não haja nuvens a toldar o tacto do olhar, mas contém tudo o que o interior de uma pedra pode reter, corrijo, deve conter. A unidade razoável do sentimento. A sílica do róseo feldspato transmite tal decência sem te prender à fria conclusão do mármore.

E como deves compreender, as estátuas por princípio, corrijo, as estátuas em conclusão, são para sempre frias, estão mortas e apenas andam a ser esculpidas pelo tempo. Sábias palavras já antes e muito melhor o disseram.

Apenas tento dizer que essa superfície amena reflecte o istmo do teu coração. Nada te esconde como nada se esconde. Somente um veio de serpentina férrea, talvez a artéria de óxido de cobre que te dá segredo, o sal que todas as pedras merecem. Mas não é por tal clivagem que quebrarás, te farás em duas, rolando mais breve até ao sentido do mar. O teu centro é a tua pele. Assim te confirmas, segura entre os cristais que o fogo desaparecido fez imergir no cerne rochoso.

E no remanso do teu contorno se depositarão ovos dos peixes, ou larvas odonatas que saltarão atmosfera fora, mais tarde, em voos de libélula. Ele é o futuro da água que, por evaporação, será o futuro do ar. A minha respiração.

Querida pedra,
desejo-te, assim, o eterno bem. E se, um dia, regressares ao oceano e às suas areias abissais, se o olhar não te puder mais acompanhar, ou a leviana ingratidão da memória fluir sobre a metamorfose do xisto, envia uma notícia. Coisa simples. Um traço na ardósia.

Fica por esta a saber que sempre serei
o teu
rio.

jef, setembro 2016

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O Paralelismo e os Peixes










Para ter a verdadeira noção da gravidade do problema era necessário olhar bem de frente para os carris do eléctrico quando chovia e, acima de tudo, quando os rodízios do transporte colectivo lhes passavam por cima.
Chegava a ser ilícito a velocidade cega, vibrante, sublinhada pelo guincho do metal contra metal, com que a vida, ou a vidinha, era contabilizada por aqueles regatos encanados e paralelos à distância de uns quantos, poucos, centímetros.
Se o caminho fosse teoricamente a direito, as paralelas ainda se uniriam no horizonte. Uma questão interessante de perspectiva. Linhas de fuga ou de concentração do olhar. Mas não, as ruas eram estreitas naquela carreira. O eléctrico era obrigado a uma acentuada mudança de direcção junto à esquina dos prédios, ao estendal da roupa, à gaiola do canário, à conversa da vizinha a entrar pela janela do veículo na justa medida da citada perspectiva.
Pelo contrário, quando as rodas se sobrepunham ao brilho dos carris, a distância regulamentar era mantida, incansável. Mesmo na subida mais íngreme.
Sem dizer água vai, ou água foi, sem dar tempo a tirar a roupa da chuva ou o canário da janela, o guarda-freio pisava com insolente responsabilidade a campainha para fazer afastar a miudagem da frente. Olhava os dois veios metálicos, riachos, onde a água corria sem nunca se tocar. Caçava as memórias. Ou pescava todas as trutas, adultas ou ainda alevins, que faziam pela vida, ou pela vidinha, subindo a colina do castelo à força de guelra e barbatana, por entre os kispos coloridos dos turistas. 
O guarda-freio, de seu nome Frederico Joaquim, que já esquecia carvalhais e granitos, mais apreciava sardinha assada com batata cozida e salada de pimento ou carapauzinhos fritos com açorda de alho, respectivamente. Não gostava do peixe do rio antigo, invariavelmente sensaborão e com espinha a mais.
A cidade tinha outro pendente, era de alvenaria. O calcário estava-lhe no sangue e tinha carris que, observados bem de perto e quando chovia, eram quase paralelos.
Frederico Joaquim, o guarda-freio, apesar de ser do rio, já era mais do mar. Como a cidade. Quando olhada de longe, também ela era de marés. Corvinas e robalos confirmavam-lhe a perspectiva e desafiavam o paralelismo dos carris.

jef, setembro 2016