sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sobre o filme «O Duplo» de Richard Ayoade, 2013


















Uma janela discreta.
É estranho um filme ficar subjugado à própria banda sonora (Andrew Hewitt – compositor; James Bellamy – produtor; Adam Armitage – editor de som). Uma espécie de Angelo Badalamenti /«Twin Peaks» (1990-91) ou Michael Nyman /«O Cozinheiro, o Ladrão,…» (1989), mas sem a irreprimível sedução dramática e o encanto cénico de Lynch ou Greenaway. Em «O Duplo», a beleza sonora e visual descola da tela, da máscara que os actores, esforçadamente, tentam emprestar ao drama. Apesar de tudo, um excelente exemplo de arquitectura e cenografia a la Alfred Hitchcock. (Não esquecer que o mestre do mistério tinha o compositor Bernard Herrmann por anjo da guarda musical!)

jef, maio 2014

«O Duplo» (The Double) de Richard Ayoade. Com Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Wallace Shawn, Yasmin Paige, Noah Taylor, Kobna Holdbrook-Smith, Jeanie Gold. Grã-Bretanha, 2013, 93 min.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Sobre o filme «O Vendedor» de Asghar Farhadi, 2016



















Este é um filme quase policial. Não entram policias ou ladrões. Pelo contrário. A narração é construída meticulosamente, cena a cena, sobre os indícios deixados de modo ostensivo sobre os planos: o telemóvel, as chaves da carrinha, o maço de notas. As pegadas com sangue, as cicatrizes. O espectador fica em vigília e vai sendo surpreendido pelo olhar e pela intriga. Deseja saber a verdade seguindo os passos de um casal que, por acidente, entra em conflito dentro do amor. E há muito amor também em torno deles: família, amigos, actores de «A Morte de Um Caixeiro Viajante»…
Sim, a intriga tem de fugir da polícia e da justiça. Trata-se de honra, de vergonha ou vingança colectiva. Fala-se de «humilhação pública» mas a questão vai sendo conduzida para o «orgulho masculino» em colisão com o «perdão feminino». A questão eterna da humanidade que a Bíblia ou a Ilíada andam há muitos séculos a tentar resolver.
Questão interessante são os temas que Asghar Farhadi vai lançando nas entrelinhas: o despoletar da trama com o anunciado desmoronamento do prédio de habitação onde vivem Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti)o cuidado para que a peça de Arthur Miller passe sem cortes na comissão de censura; a benevolência que salva uma sociedade relativamente livre, relativamente vigiada…
«O Vendedor» de Asghar Farhadi é, provavelmente, o melhor filme de acção exibido por aí.

jef, dezembro 2016

 «O Vendedor» (Forushande) de Asghar Farhadi. Com Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti, Babak Karimi. França / Irão, 2016, Cores, 125 min.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Sobre o filme «O Fim do Outono» de Yasujiro Ozu, 1960


















A íntima distância da família.
Ninguém, como Ozu, filma essa fina película insolvente feita de amor, silêncio, cerimónia e mal-entendidos. Desconheço se os cinéfilos inventaram algum termo especial para classificar tal técnica cinematográfica. «Campo-contra-campo-a-favor-do-campo»? Todas as personagens são colocadas em paralelo, em planos desfasados, como se um papel vegetal estivesse sobreposto à imagem e Ozu se dedicasse minuciosamente a copiá-la, alterando-a. Todas as frases nos diálogos são compassadas, possuem uma fracção ínfima de silêncio entre elas. Ajuda a repensar cada palavra, a sopesar cada olhar, provoca-lhes um ligeiro atraso na acção mas amplia-lhes a importância, a objectividade. Mesmo muitos dos títulos dos seus filmes reflectem essa demora consciente: o Outono vai terminar, a Primavera é tardia. As novas gerações amam mas impacientam-se, as gerações anteriores aceitam esse amor mas escudam-se na memória. A música é ternamente alegre antes do drama, soa em tons menores antes do humor. A Grande Guerra está lá, o passado omitido, também a Grande América, o presente imposto. Tudo em simultâneo, mas com desfasamento… Afinal, a vida é mais simples do que nós sentimos, mas para a compreendermos é preciso atrasar (ou adiantar) o relógio. Ozu ajuda-nos a interpretar esse lapso familiar tal como, anacronicamente, ele nos é devolvido pelo Tempo.
A melhor definição para Nostalgia.

jef, agosto 2014

«O Fim do Outono» (Akibyori) de Yasujiro Ozu. Com Setsuko Hara, Yoko Tsukasa, Mariko Okada, Keiji Sata, Shin Saburi, Sadako Sawamura, Miyuki Kuwano, Chishu Ryu, Ryuji Kita. Música: Kojun Saito. Japão, 1969, Cores, 128 min.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sobre o filme «A Flor do Equinócio» de Yasujiro Ozu, 1958


















A estética como essência.
Estará a felicidade presente ameaçada pela projecção do futuro? Pergunta-nos Yasujiro Ozu na cena onde o casal está sentado, lado a lado, no seu provável último passeio em família. Enquanto vêem as duas filhas passearem de barco no lago, recordam o tempo dos bombardeamentos a Tóquio. Ele lembra a arrogância das pessoas, ela fala do escuro e do sentido de unidade da família. É a cena-espelho através da qual o filme se revela-reflecte no interior do espectador. Ozu aperfeiçoa com minúcia esta técnica para, filme a filme, reavaliar a moral e a guerra, o tempo e as gerações, o amor aprisionado dentro a tradição. Como um artesão que utiliza matéria primitiva, o realizador vai burilando uma técnica para cumprir a estilização dos planos baixos e frontais das personagens, dos movimentos de câmara imperceptíveis, dos cenários paralelos. Um método que se vai fundindo com a própria essência da forma. Ou seja, a estética como princípio, essa tangente à curva em determinado ponto. Uma curva que tende para o infinitamente belo. A perfeição e a sua derivada.

jef, agosto 2014

«A Flor do Equinócio» (Higanbana) de Yasujiro Ozu. Com Shin Saburi, Kinuyo Tanaka, Ineko Arima, Keiji Sata, Teiji Takahashi, Miyuki Kuwano, Chishu Ryu, Cheiko Naniwa, Nobuo Nakamura. Música: Kojun Saito. Japão, 1958, Cores, 115 min.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Manhã












Por vezes, há um som claro na manhã,
uma voz limpa, um ponto alto,
sem sombra, sem explicação,
apenas a luz de um reflexo na ausência de história
ou de memória, que lança a vontade em direcção
do que fazer. Nada de argumentos práticos ou contestação híbrida.
Apenas a demanda do futuro.
Aquilo que realmente está escrito será dito
porque sem pressentimento ou destino.
Coisa que se apodera, sem direito a devolução ou modo de recriminação, de um som claro
que surge, assim, sem querer mas por imposição,
como o acto indissolúvel
que é esta minha manhã.


jef, dezembro 2016

Sobre o filme «Mapas para as Estrelas» David Cronenberg, 2014


















O elogio do desperdício.
Por que realizou Cronenberg «Mapas para as Estrelas»? Onde terá ficado a violenta intimidade, a maravilhosa violência, de «A Mosca» (1986), «Dead Ringers» (1988), «Crash» (1996), «eXistenZ» (1999)? Para que serve o fôlego único de Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack e Robert Pattinson? Por que arrepia tanto, ali, a «liberdade» de Paul Éluard? E se foi para experimentar a Alta Comédia Negra sobre a Negra Hollywood, não terá Billy Wilder, em 1951, feito melhor ao colocar o jornalista Joe Gillis (William Holden) a narrar em voz off o sucedido, apesar de bem morto e mergulhado numa piscina?
Ai que a Arte é tão cara e tão difícil... Porquê desperdiça-la?

jef, dezembro 2014

 «Mapas Para as Estrelas» (Maps to the Stars) de David Cronenberg. Com Julianne Moore, Mia Wasikowska, Robert Pattinson, John Cusack, Evan Bird. Alemanha / França / EUA / Canadá, 2014, Cores, 111 min.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Sobre o livro «Vinte Degraus e Outros Contos» de Hélia Correia, Relógio D’Água 2014


















Sant’Ana ensina Nossa Senhora a ler.
Ao ler o livro de Hélia Correia fico na dúvida. Falará ele de retábulos, parábolas e ícones metafísicos, do mediterrâneo helénico, da profundidade azul do encantamento, ou dissertará, antes, sobre o encarnado e a carnificina humana? Hélia Correia nestes contos narra o poder carnívoro pegando no escopro e bisturi e forçando a criação de um híbrido de espírito e vísceras e profecia. Um casamento entre a definição de Natureza tentada por Gonçalo M. Tavares e a cicatriz social feminina avançada por Agustina Bessa-Luís. É verdade, é injusto comparar grandes escritores, mas a leitura tem destas coisas…
No entanto, cuidado!, deste livro ninguém sai ileso. É aprender a ler e, depois, partir.

jef, novembro 2014

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Os Belos Dias de Aranjuez» de Wim Wenders, 2016














É difícil dizer mal de «Os Belos Dias de Aranjuez», a peça de teatro que Peter Handke escreveu e que Wim Wenders realizou venerando a amizade que o une ao escritor de «A Angústia do Guarda-redes Antes do Penalty» (1970) que dois anos mais tarde Wim Wenders vem filmar.
Por outro lado, este filme deixa uma sensação de incompletude, de suspensão da acção presente sobre as histórias recordadas, de ausência de palavras (e aqui só há palavras, em campo contracampo e com a câmara a rodar suavemente sobre os rostos destacados da folhagem do jardim pela técnica das três dimensões).
Mas falta aqui qualquer coisa.
Também temos um inicial «Perfect Day» de Lou Reed a soar sobre os céus tranquilos de Paris e um quase conclusivo «Into My Arms» que vem da jukebox para o piano de Nick Cave. Um cão em fuga derivando na floresta, tal como o escritor que antes escutava a voz em diálogo dos seus protagonistas. Uma mesa com uma maçã em repouso e duas cadeiras, minúscula réplica do cenário essencial do filme. Coisa esteticamente perfeita, insubmissa e desconcertante, tal como faria Tarkovksy. Tal como vão fazendo as palavras narradas, a plena insatisfação do amante quando recorda um passado que talvez não mereça tanta memória. Uma «cabana de lavrador» perdida numa paisagem inventada. Uma paisagem que se desejava recriada, duplamente imaginada.
No entanto, a este filme talvez falte o deslumbrante isolamento do guarda-redes face à premente expectativa.
Talvez falte qualquer coisa. Não sei…
Mas não será essa mesma angústia nostálgica que transborda de «Alice nas Cidades» (1974), «Ao Correr do Tempo» (1976), «O Estado das Coisas» (1982), «Paris Texas» (1984), «As Asas do Desejo» (1987)?
Continuará Peter Handke a cuidar do jardim de Wim Wenders e este a ceder a imagem a uma solidão tão absoluta quanto estética?

jef, dezembro 2016


«Os Belos Dias de Aranjuez» (Les Beaux Jours d'Aranjuez) de Wim Wenders. Com Reda Kateb, Sophie Semin, Jens Harzer, Nick Cave, Peter Handke. Portugal / Alemanha / França, 2016, Cores, 97 min.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Bom Dia» de Yasujiro Ozu, 1959


















A verdade não se toma de uma vez só. 
É preciso olhá-la uma, outra vez, virá-la do avesso, afastarmo-nos, aproximarmo-nos dela. Mesmo assim, no dia seguinte, apresentará tonalidades diferentes. Por isso, Yasujiro Ozu filma sempre a mesma história, faz-se acompanhar dos seus actores de sempre, as cores e a arquitectura, os planos, os diálogos, são permanentemente rigorosos, estáticos, belos. Em «Bom Dia», Ozu refaz uma comédia de 1932 («Nasci, mas…») e apresenta dois irmãos em «greve de palavras» contra a atitude dos pais. Contudo, a verdade filmada volta a ser esse sedimento que resiste, nostálgico, ao que é novo e insiste em renascer. O silêncio dos rapazes é, ao mesmo tempo, simples e muito complexo. Como o é toda a linguagem no seio da sociedade. A invasão da tecnologia hertziana do novíssimo aparelho televisivo contra a necessidade repetida de um «Bom Dia!» e de uma conversa vácua sobre o estado atmosférico na plataforma ferroviária. Toda a força ética da ternura contida na cena final do filme. Quem por ela não for tocado, que se cale para sempre!

jef, agosto 2014

«Bom Dia» (Ohayô) de Yasujiro Ozu. Com Keiji Sada, Yoshiko Kuga, Chishu Ryu, Kuniko Miyake, Haruko Sugimura, Koji Shitara, Masahiko Shimazu. Japão, 1959, Cores, 94 min.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Mãe e Filho» de Calin Peter Netzer, 2013














A viscosidade da lixa.
A ideia imediata que tenho de cinema europeu de vocação «social» (preferiria escrever «socialista» mas teria de gastar muitas linhas para dizer o que não quero dizer) vai directa aos filmes de Jean-Pierre e Luc Dardenne e ao cinema romeno. De entre as imagens dessa Roménia dura, rigorosa, empenhada, programática, surge a enorme força (poder) de uma actriz: Luminita Gheorghiu. Quem a vê neste filme, nunca mais a esquece, como nunca mais a esquecemos em «A Morte do Senhor Lazarescu» (Cristi Puiu, 2005) ou no papel minimal em «Código Desconhecido» (2000) de Michael Haneke, outro inveterado cineasta «socialista». «Mãe e Filho» é um filme para consagrar Luminita Gheorghiu, para lhe dar a tela toda, para oferecer ao espectador uma personagem (Cornelia) complexa, viscosa, áspera, quase feia, composta por camadas e silêncios, deslocando-se obstinada e obcecada entre movimentos de câmara excessivos. Contudo, o «excesso de câmara» é interrompido, concentrando o olhar ao espectador, nos três momentos decisivos do filme: (a) o encontro de Cornelia com a testemunha do acidente, (b) o momento em que a nora expõe a intimidade do seu filho; (c) o confronto final com a perda irremediável de um filho (ou do seu amor). As três derrotas de Cornelia. Um filme dedicado à dramaturgia da derrota que, em todo o caso, será sempre a conquista de um certo Herói / Heroína.

jef março 2014
«Mãe e Filho» (Pozitia copilului) de Calin Peter Netzer. Com Luminita Gheorghiu, Bogdan Dumitrache, Natasa Raab. Roménia, 2013, Cores, 112 min.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sobre o livro «Uma Vasta e Deserta Paisagem» de Kjell Askildsen, Ahab 2011


















A solidão ou a dor imensa.
7 histórias contidas dentro de 1 pequeno livro. 74 páginas.
Sete contos que denunciam a dificuldade em estabelecer um espaço que circunscreva a solidão. Kjell Askildsen define-o com a ausência de coordenadas quando o corpo começa a falhar e as palavras tropeçam nos afectos ou, pior, se vêem sitiadas pelo silêncio. Kjell Askildsen é um escritor radical e minucioso que coloca no centro da narrativa os pequenos gestos e os quartos vazios. Também os quintais ao fim da tarde. Kjell Askildsen é o narrador do tempo em falta. Quem não sabe o que é esse sentido visceral que pode surgir como um sótão escuro e abafado mas também como o parapeito que fracassa perante o abismo, não precisa deste livro.
Sete histórias minúsculas dentro de um livro imenso.

jef, agosto 2014

A tradução é de Mário Semião

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Lágrimas e Suspiros» de Ingmar Bergman, 1973














O crédito da morte. O débito da vida.
Este filme parte de uma premissa radicalmente simples. A simplicidade com que a morte fundamenta a vida quando esta se conclui. O silêncio que cai sobre a pele que arrefece, sobre as palavras que não foram ditas. Talvez sobre a pele que cobre as próprias palavras. Uma película que, nesses breves momentos (90 minutos de projecção), é rasgada deixando a família sem refúgio, sem presente, sem compreensão. Logo depois, a sociedade reorganiza-se, volta a cimentar a distância, revestindo as palavras com nova pele, novos compromissos, nova hipocrisia. Novos silêncios. A simplicidade deste filme é tão irremediável como a própria morte. O branco, o negro e o vermelho, a separar. A mazurca de Chopin e a sarabanda de Bach, a terminar. O amor, o desamor e o medo, em contratempo e contracampo. A imagem que traz o nosso olhar para perto, infinitamente perto, até ferir, da derme, do grito, do falso sorriso, dos lábios, das mãos, das sombras, da dor. E, por fim, uma cena demasiado simples para não ser dolorosa. Um plano a fechar-se sobre uma página de diário, as quatro mulheres reunidas, um baloiço no parque, um lapso de felicidade. Este é um filme para ser simplesmente sentido, explicá-lo é destruí-lo (como dizia João Bènard da Costa).

jef, fevereiro de 2014
«Lágrimas e Suspiros» (Viskningar Och Rop). Com Harriet Andersson, Liv Ullmann, Ingrid Thulin, Kari Sylwan, Anders Ek, Erland Josephson, Hening Moritzen. Suécia, 1973, Cores, 91 min.

Sobre o filme «O Salão de Jimmy» de Ken Loach, 2013


















A arte é mais política do que a violência.
Pode não ser o melhor filme de Ken Loach, mas é um filme de Ken Loach. Pode ser demasiado programático e temporalmente confuso mas é um belo filme inglês. Daqueles com os cenários, o guarda-roupa, a banda-sonora, os diálogos e os actores no lugar certo. E, acima de tudo, é muito bom reflectir no papel da arte na política. Hoje, com a violência real a surgir como falso acto estético emanado de algum perverso vídeo-clip ou jogo de play-station (Síria Iraque Palestina Israel Ucrânia Europa Estados Unidos…) é bom relembrar como a poesia, a música e a dança podem unir consciências e agregar comunidades. O coreógrafo e bailarino Maurice Bèjart (1927-2007) sabia-o quando discursou no Coliseu de Lisboa, em 1968. O contrabaixista Charlie Haden (1937-2014) sabia-o quando discursou no Dramático de Cascais, em 1971. Bèjart e Haden sofreram as consequências mas exerceram o seu direito político à dança e à música. Exerceram o seu direito de consciência pública. No filme, também Jimmy Gralton ajudou a entregar o direito colectivo da dança à população do Condado de Leitrim (Irlanda), em 1932. Sofreu as consequências mas fez política.

jef, agosto 2014

«O Salão de Jimmy» (Jimmy's Hall) de Ken Loach. Com Barry Ward, Simone Kirby, Jim Norton, Francis Magee, Aisling Franciosi, Andrew Scott. Grã-Bretanha, 2013, Cores, 109 min.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Cavalo Dinheiro» de Pedro Costa, 2014


















A bela luz das estrelas idas
«Cavalo Dinheiro» é mais uma muralha colocada em torno do reino de Pedro Costa. Um rochedo enorme que pega no passado e o leva até ao futuro sem parar no presente. Um filme sem presente. Que importa que nos coloque a 25 de Abril de 1974 ou a 28 de Julho de 2013? Aqui só existe a interpretação do espaço e do tempo pela luz. Apenas a luz e a sua velocidade. Coisa praticamente sem matéria mas que leva as estrelas falecidas a reflectirem-se no nosso futuro. Onde estaremos nós nesse momento preciso? Pela luz talvez cheguemos a algum lugar incerto. Talvez através do fotograma, meticulosamente suprimido e recolocado, possamos ver finalmente o sorriso de Vitalina reflectida sobre a bondade de uma carta falsa. Talvez seja Goya, Bruegel, Rembrant, Edward Hopper, a explicar-nos o presente da luz que virá ter connosco. Essa tristeza… Ou Murnau, não sei… Nosferatu pode ter medo da vida mas Ventura não tem medo da morte… Este filme jamais nos perderá! Quem o perderá?

jef, dezembro 2014

«Cavalo Dinheiro» de Pedro Costa, 2014. Com Ventura, Vitalina Varela, Tito Furtado, António Santos, Benvindo Tavares Ventura. Portugal, 2014, Cor, 104 min.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Eu, Daniel Blake» de Ken Loach, 2016














Todo o cinema é político!
Sem querer citar George Sadoul, recorro frequentemente à sua História do Cinema Mundial, publicada pelos Livros Horizonte nos anos 80 do século passado. Todo o cinema, toda a arte, são criados no seu tempo e ensopam-se de qualquer coisa actual que um dia virá a fazer parte da História.
Ao ver «Eu, Daniel Blake» recordo «A Terra Treme» de Luchino Visconti (1948), «Ladrões de Bicicletas» de Vittorio De Sica (1948), «Roma, Cidade Aberta» de Roberto Rossellini (1945), «A Estrada» de Federico Fellini (1954). Com eles vejo a necessidade de mobilização contra uma sociedade-sistema que se serve do indivíduo-máquina para garantir um modo económico abstracto e abjecto.
Mas também me lembro, ao assistir à comovente história deste carpinteiro, gentil, amoroso, generoso, sorridente, que luta pelo equilíbrio social contra essa tal sociedade-sistema, de «O Grande Ditador» de Charlie Chaplin (1940), «Do Céu Caiu Uma Estrela» de Frank Capra (1946), ou a «A Cor Púrpura» de Steven Spelbierg (1985).
Apesar da revolução industrial já ir longe, de terem derrotado o neo-realismo, o que será de uma sociedade que, por sistema, se esquece daqueles que a sustentam?
O que é o cinema sem a estética da emoção e da comoção?
O que seria da nossa alegria, das nossas lágrimas, da mobilização da nossa consciência sem «Eu, Daniel Blake»?

jef, dezembro 2016

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Sobre o filme «O Olho do Diabo» de Ingmar Bergman, 1960


















Um diabo no armário ou a qualidade do beijo.
Guardar religiosamente um demónio no armário (juntamente com a garrafa de aguardente) é sempre útil para mantermos a consciência alerta. Ingmar Bergmar diz-nos mais: a consciência não é consciente não é nada se não estiver nesse estado de vigília. Sobre o assunto, esta comédia ainda acrescenta, «é preferível um pequeno êxito do Inferno ao triunfo retumbante do Paraíso». Assumido o estado desperto da bondade perante a sedução do engano, estamos preparados para enfrentar a verdade, a idade adulta, o amor pleno. Também o teatro. No palco, os factos são suficientemente claros para serem entendidos. Na vida e no amor, as coisas são bastante mais confusas. Afinal, como podemos classificar o melhor beijo: pelo sabor que deixa na memória ou pela ferida que imprime?
Ao que parece, Ingmar Bergman não valorizava muito este filme, conseguido através de um negócio tido com o produtor Carl Anders para conseguir realizar «A Fonte da Virgem» (1959). Eu valorizo. 

jef, fevereiro 2014

«O Olho do Diabo» (Djävulens Öga) de Ingmar Bergman, Com Jarl Kulle, Bibi Andersson, Stig Jarrel, Nils Poppe, Gertrud Fridh, Axel Duberg, Allan Edwall, Gunnar Björnstrand. 1960, P/B, 87 min.

Sobre o filme «O Exame» de Cristian Mungiu, 2016














Amor com Amor se paga. Favor com Favor se paga. Cristian Mungiu coloca uma pedra e os estilhaços que ela provoca na serena atmosfera de uma casa de família simples. E honesta. Inicialmemente.
A intifada!
Romeo (Adrian Titieni), o pai, Magda (Lia Bugnar), a mãe, e Eliza (Maria-Victoria Dragus), a filha. Respeitado médico, bibliotecária em estado depressivo, estudante pré-universitária esforçada e inteligente. A cor, entre o pastel e o sépia, parece zelar pelo afecto de uma família empenhada em que Eliza receba uma bolsa e vá estudar para Inglaterra. Também a música de Haendel e o Lacrimosa de Vivaldi soam roufenhos, velados, saídos de altifalantes esquecidos pelo enquadramento.
Mas o empenho e o amor não chegam para contrariar os acasos infelizes da vida. E o favor ressarcido talvez seja a solução. A acção carece necessariamente de uma reacção. Ou seja, exige consequência e Cristian Mungiu, mestre da intriga social e do suspense realista, coloca o espectador em perseguição de Romeo, enervando-o com a luz solta, com o som claro dos estilhaços, com os compromissos e os respectivos reflexos.
E há um telefone que não pára de tocar e não é atendido. 
E há uma moral a ser conquistada por amor à verdade. 
Mas também há a verdade do amor. 
O mundo começa a desabar sobre o amor e sobre a verdade.
O espectador vai ficando desarmado, testemunha e juiz de um filme que foi apresentado, em Portugal, pela magistrada Maria José Morgado. 
Que atire a primeira pedra…

jef, dezembro 2016

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Sobre o livro «A Implosão» de Nuno Júdice, Dom Quixote 2013














Pátria Minha Morta Amada
Li o livro ao sabor de golos, golpes e golfadas. Quero dizer, não o li de uma só toma, como mandam fazer com os comprimidos e as doenças. Li-o aos... pedaços, como acontece com os iogurtes que, de ácidos, se tornam frutuosos. Li-o todo, da primeira à última página, assim, mas em fragmentos, como se estivesse dentro de uma casa forrada de espelhos, cheia de esquinas e vértices, em companhia de alguém que empunha uma pedra e prepara-se para a atirar, recuando depois perante os reflexos do passado e do futuro. Os meus companheiros são três, mas são o mesmo. Estamos todos numa casa mortuária, mais a vigiar do que em vigília fúnebre, a velar (suspeitar) uma morta incógnita: Ângela, Pátria, Europa, Guerra, armas escondidas… Sinto o estuque a cair e a humidade, o Cristo de pau carunchoso, a luz que vacila, o medo e a traição. O reflexo desse alguém que pode atirar uma pedra no escuro da noite. Lembrei-me da cena de «A Dama de Xangai» de Orson Welles, 1947. A angústia por uma Europa estilhaçada, uma memória que não pode tomar-se de um só golo, nem vomitar-se de uma só golfada. Apenas o golpe da pedra sobre a lâmina de vidro (adiada, mas certeira). De novo, a solução de alguma coisa que tem a ansiedade como presente. Portugal. Porém, tal como em «A Dama de Xangai», está tudo ensopado de uma calda irónica, recôndita mas indelével, um sarcasmo mauzinho, um perverso convite ao leitor para sorrir do que não deve, como não deve, e depois ter pesadelos. (Também não esqueci Eça de Queirós, Mário Henrique Leiria, Mário de Carvalho…)
Mas, por fim, acabei por tomar um táxi e voltar a casa.

jef, maio de 2013

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Vénus de Vison» de Roman Polanski, 2013














«Vénus de Vison / La Vénus à la Fourrure / Venus in Furs» é uma peça de teatro de David Ives, encenada por Roman Polanski que, agora, decide trazê-la para o cinema. Sobre o palco está a encenação-realização-adaptação de uma famosa novela, publicada em 1870, do austríaco Leopold von Sacher-Masoch, patrono do masoquismo. No local, está ainda presente um encenador, Thomas, desesperado por não encontrar actriz à altura do papel de Wanda von Dunayev. Ali também se encontrará Vanda Jourdain, encharcada até aos ossos, que, em dia de tempestade parisiense, chega atrasada à audição para o papel de Wanda. Thomas é o actor Mathieu Amalric, cansado e a um passo da desistência, e Vanda é a actriz Emmanuelle Seigner que, contra todas as expectativas, traz o papel integralmente decorado, empunhando até uma cópia maltratada, mas completa, da peça. Precisa de alguém para lhe entregar as deixas. Thomas, o encenador, terá a contragosto de fazer esse papel. Será o aristocrático Severin von Kusiemski.

O momento chave encontra-se na cena onde, de costas para Emmanuelle Seigner, ausente do plano, Mathieu Amalric escuta a voz transformar-se da vulgar Vanda Jourdain na misteriosa Wanda von Dunayev.

Agora, os dados estão lançados sobre o teatro e a eterna troca de papéis. O resto é sabido desde o aparecimento do homem, desde a Grécia passada, desde as Bodas de Fígaro. O ser ambíguo ou ser ambivalente que dará sempre o dito pelo não dito por uma côdea de pão ou pelo sorriso de alguém. O teatro, o cinema, a literatura e as belas artes são apenas máscaras ou espelhos desse ser humano. A música também. A seguir.

(1)  Este filme não é teatro. Porque a gestão da banda sonora de Alexander Desplat, provoca, intensifica, despoleta a acção narrativa, unifica as cenas e condensa a expectativa emocional do espectador. A abstracção sonora move-se sobre a chávena e a colher de um hipotético café oferecido, ou sobre a assinatura do contrato de submissão. A banda sonora contém o som silencioso da observação.

(2) Esta peça não é bem cinema. Porque o aparecimento de uma Afrodite seminua envolta em (provavelmente) raposa do Árctico, num tom expressionista de cinema mudo, quase circense, a relembrar Vénus, as Bacantes, Eurípides, retira a carga lírica e melodramática que o cinema actual por vezes transporta de modo gratuito. Assim cai o pano sobre a peça (o filme) com um sorriso, um alívio, um toque de deusa ex-machina que nos liberta do medo do "poder" feminino ou masculino.

(3) Este filme não é apenas dramático, é plástico. Porque as imagens sobre as quais corre a ficha técnica, vindas da época das Belas Artes mais clássica, mais barroca ou renascentista, colocadas em diaporama sucessivo, vem recordar deusas, afrodites, venus, danaes, mulheres.., despidas, expostas, belas, voluptuosas, despudoradas, entregando-se maravilhosamente e "maravilhadamente" a quem as olha. Vem comparar e testemunhar que a vergonha nas artes do século XXI ainda pode mover rios de tinta e teses de doutoramento apressadas.

A verdadeira beleza da arte dramática (e talvez da poderosa Afrodite) concentra-se nesse momento fugaz, tão ambíguo quanto ambivalente, quando verificamos que fomos levados pela pantomima (estratégia) de Polanski / Ives / Seigner / Amalric / Desplat. Fizeram-nos acreditar na tragédia, mas reparamos, agora à saída do cinema, que tudo afinal não passava de um sonho profundo, de uma diversão malévola, de uma magnífica tarde passada nas margens do teatro.

jef, dezembro 2013

«Vénus de Vison» (La Vénus à la Fourrure) de Roman Polanski, com Emmanuelle Seigner, Mathieu Amalric. França/Alemanha, 2013.