segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Onde é guardado o futuro?














Onde é guardado o futuro?
Na palma das mãos?
No fundo dos olhos?
Na poeira esbranquiçada que reveste o córtex?
Na aorta, junto do coração que lateja?

Talvez antes na ponta do lápis, na grafite deslizando sobre as fibras irregulares do papel manteiga.
Carbono sobre carbono,
puro como o diamante
mas sem o tetraedro
a endurecer-lhe o olhar.
Um olhar menos vítreo,
mais cúmplice.
Ligações duplas.

O futuro anda perdido
nas finas camadas dos dias que deslizam suavemente umas sobre as outras.
Assim deve ser.
Matéria mais dúctil
como os dedos de uma mão.
Mais dócil
como um olhar que se aprofunda.
Mais próximo
como o córtex quando adormece
e entrega a tarefa da procura certa ao coração
[único músculo com alma, pulso, vasos e duplas ligações]
quando, batida após batida, vai contando,
 entre os sonhos da grafite,
o tempo que me falta para ir buscar o futuro.

jef, dezembro 2015

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Conto de Natal














Rafael

Em acto puramente divino, alguém cedeu a Rafael a aljava com as setas do Amor.
A seguir, em acto solene, entregaram-lhe a besta, de arco e hastil prontos a disparar, através da qual cravejaria de enlevo todos os prováveis amantes.
Nesse dia, em acto amorável de puro e divino afecto, Rafael dardejou toda a humanidade. E toda a humanidade se reconciliou.

No mesmo dia, não podendo atingir o seu próprio coração com a seta encharcada do elixir, Rafael nunca mais se apaixonou.

jef, dezembro 2015

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O segredo e Heisenberg











Secretos são os vícios de Polónio. 
Como todos os vícios são, ou tendem a ser.
A vida tem destas coisas. Se não houvesse segredos, na prática poderíamos dispensar até a própria vida.
Porém, pouco ali havia a descobrir.
Foi isso que Estefânia pensou ao encontrar a carta debaixo do forro de papel da gaveta do armário.
Mais do que a confiança perdida (uma vez perdida, perdida para sempre), Estefânia descobriu o Princípio da Incerteza.
Coisa da Mecânica Quântica e do Futuro.

jef, dezembro 2015

[«A Calúnia» de Irma Renault]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sobre o filme “Minha Mãe” de Nanni Moretti, 2015.















A Arte e o Luto.
«O Grande Peixe» de Tim Burton, 2003. «O Quarto do Filho» de Nanni Moretti, 2001. «Amor» de Michael Haneke, 2013. «Tudo Vai Ficar Bem» de Wim Wenders, 2015. São filmes hiper-realistas sobre a assunção de um sentimento sem senso. Só a arte pode ocupar o espaço de uma tal ausência. Só a arte traduzirá um espectro tão vazio que chega a encher o universo. «Minha Mãe» de Nanni Moretti refaz a estrutura de uma família nesse trajecto desértico e impuro, entre o remorso e um carinho perdido mas reeleito e refeito em reconstrução velocíssima. Memória e Luto, os mais amados frutos do Tempo.

jef, dezembro 2015

Moretti, Nanni “Minha Mãe” (Mia Madre). Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti, Beatrice Mancini. França / Itália, 2015, Cores, 107 min.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A um ouriço-cacheiro.














Santo Sacrifício pelo tempo que já não existe. Vã proposta de felicidade ausente. Vento preso no lençol do estendal. Fingida actualidade de um corpo que muda constantemente no desejo de chegar mais perto da morte, a pedir por um pouco mais de vida. Assim o fruto apodreceu, assim a tinta secou na caneta, assim tão belas e heróicas odes de Píndaro desapareceram para sempre. Como se o deixar de existir fosse o mesmo que o futuro.

Ah, Santo Ofício pela eternidade do sacrifício. Antes ele que eu, diz o pássaro, assustado ao sobrevoar a estrada onde o ouriço-cacheiro acaba de ser esmagado pela roda de um automóvel. Santo veículo a ultrapassar o ofício.

Pura vantagem da ventania que abandonou o lençol em pendente decreto da gravidade. Gravidade do ofício que é veículo do Tempo. Um minúsculo orifício suspenso no estendal do vento cósmico. Santo Orifício!

Um orifício negro preso ao universo. Secreto. Tão negro como a estrada. Um esférico, a outra plana, como um plano secante à esfera de raio infinito. Pobre animal que já não olhará o pássaro do medo a correr por cima do vento, por cima da estrada, por cima do nosso sacrifício. 

Ah, Ouriço! Nosso Sagrado Bicho!

jef, dezembro 2015