segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sobre o filme «Três Cartazes à Beira da Estrada» de Martin McDonagh, 2017















O grande trunfo deste filme é talvez o que o torna mais vulnerável. Enfim, incoerências de um espectador baralhado.

Ou seja, a alta comédia de contornos trágicos mede-se pela categoria dos diálogos que fazem de um western negro um grande painel de personagens à beira da desgraça e da gargalhada, com uma bela colherada de leite com cereais atirada ao cabelo do filho, órfão de irmã, lembrando a sátira do cinema mudo das tartes lançadas à cara do mauzão. Aqui não há figuras más nem figuras boas. Não há figuras sérias. Há figuras do teatro, mas do teatro verdadeiro. Todas se vão transformando em potenciais salvadores do mundo ou em «desgraçadores» da pequena comunidade de Ebbing, Missouri. E como nos melhores filmes americanos, aqui se fala das questões importantes que preocupam a América (e o Mundo), e que fornece um belo fim de tarde no cinema.

William Willoughby (Woody Harrelson), o ineficaz chefe da Polícia que devia andar a atrás dos violadores assassinos de adolescentes, afinal,  é o melhor pai de família e escreve cartas póstumas com arte e estilo salvando moralmente Mildred Hayes (Frances McDormand), a mãe atormentada e potencial assassina de potenciais violadores que, depois, se junta a Jason Dixon (Sam Rockwell), o mais estúpido e racista polícia de Ebbing que, afinal, se torna no ultra eficiente investigador forense mas que, no final, não obtém lá grande sucesso.

O melhor do filme é essa coerência trágica dentro da comédia e esta encerrada em diálogos constantes e loucos ajudando um argumento que, de tantas reviravoltas, permite que o enorme actor secundário, Sam Rockwell, se torne no actor principal, revelando ainda mais e por reflexo a grandiosidade expressiva de Frances McDormand.

Contudo, o dever (humorístico) do argumento de todas as pontas soltas (e são muitas) terem de bater certo antes do «the end» faz com que se dilua alguma chama dramática, alguma tensão de «palco». 

E, por belos argumentos matreiros e definitivos, enfim coboiadas geniais, vou rever «O Homem que Matou Liberty Valance» do John Ford, 1962.

jef, janeiro 2018.

«Três Cartazes à Beira da Estrada» (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) de Martin McDonagh. Com Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Peter Dinklage. Grã-Bretanha / EUA, 2017, Cores, 115 min.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Sentido










Se da pérola extraímos o tacto
Da luz silenciamos o grito
Esse teu senso, esse meu olfacto
Que da pele observa, em espírito


jef, 11 de janeiro de 2018

(Full Fathom Five, Jackson Pollock, 1947)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Sobre o filme «O Meu Belo Sol Interior» de Claire Denis, 2017















Reduzir o discurso amoroso ao ponto de lhe retirar até a centelha de ridicularia a que tem direito, como Pessoa sublinhou, banalizando-o durante hora e meia, é também retirar-lhe o senso, o pathos, a sinceridade do sentimento, a própria filosofia. Venham as palavras de onde vierem.

Claire Denis tem na mão uma das melhores actrizes do mundo (das mais belas também) e coloca-a, logo de início, sob o fogo dessa tal banalidade, numa cena de sexo, atroz, inestética, longa demais, como todas as que lhe seguem. E para quê expor Juliette Binoche a tão degradantes cenas, sob um guarda-roupa tão desajustado, em que nunca se observa o centro do cenário ou se justifica o campo-contra-campo?

Pouco depois, surge outra cena feíssima. A do bar. A seguir vêm mais, umas a seguir às outras, até culminar com a do cartomante, um Gérard Depardieu caído do nada, ou saído do automóvel de Valeria Bruni Tedeschi, mas que salva o genérico final falando intensamente sobre nada. Reserve o espectador pois o contracenar desses dois grandes actores!

Recorde-se ainda a cena na casa de banho onde Juliette Binoche faz o impossível para revelar o seu génio. E revela!

Para mim, Juliette Bonoche será sempre a Juliette Binoche de, por exemplo,  Abbas Kiarostami («Cópia Certificada», 2010, « «Shirin», 2008) ou de Michael Haneke («Nada a Esconder», 2005), e procurarei esquecer a fealdade deste filme! O cinema deve procurar, antes demais, o sentido da beleza!

jef, janeiro 2018.

«O Meu Belo Sol Interior» (Un Beau Soleil Intérieur) de Claire Denis. Com Juliette Binoche, Xavier Beauvois, Philippe Katerine, Josiane Balasko, Valeria Bruni Tedeschi, Gérard Depardieu. Bélgica / França, 2017, Cores, 94 min.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Sobre o filme «Suburbicon» de George Clooney, 2017














Existe qualquer coisa de acrílico em «Suburbicon». E não é certamente a função genética da cultura americana em fazer arte com a autocrítica aos seus próprios traumas. Neste caso, estão de volta os terríveis anos 50!

George Clooney adapta (com Grant Heslov) um argumento perdido de Joel e Ethan Coen e filma muito bem, construindo uma história estilizada entre o policial negro e a alta comédia «gore», cheia de sangue e mortos.

Tomamos logo o pulso à paródia no magnífico genérico inicial onde a publicidade aos benefícios de viver nos subúrbios, com espaços ajardinados e repletos de belos automóveis «vintage», infra-estruturas sociais e absolutamente livre de crises sociais e estudantis. Vem depois um diálogo estranho entre as duas irmãs gémeas interpretadas pela dupla (e belíssima) Julianne Moore. A coisa descamba com a instalação da urbanização do primeiro casal negro. O caldo entorna com um pacífico e inexplicado assalto a casa dos Lodge. O resto é irmãos Coen numa sucessão de reviravoltas para que toda a família saia derrotada e a «higiénica» América do pós-grande-guerra-pré-guerra-fria seja sublimada.

O cenário, o guarda-roupa e os adereços são magníficos mas nunca deixam de ser o cenário de plástico onde Matt Damon e Julianne Moore abusam do estereótipo a que (bem) nos habituaram. Como em «The Truman Show - A Vida em Directo» (1998) ou «Eduardo Mãos de Tesoura» (1990) mas sem a indispensável fantasia de Peter Weir ou Tim Burton.

Contudo, o centro da narrativa está nos olhos do pequeno Nicky (Noah Jupe) que, de um modo assombroso, faz unir o filme do princípio ao fim, retirando-lhe a película de celofane e aplicando a luz do inusitado drama cómico.

E ainda temos o fantástico pesquisador de fraudes em seguros, interpretado por um inesquecível Oscar Isaac (outro dos amigos de  Clooney  / Coen).

E a música (Atenção!, neste filme a música é indispensável!!) do grande Alexandre Desplat.

Assim, vá lá!, desculpem Matt Damon, Julianne Moore, George Clooney, os irmãos Coen. Coloquem os acrílicos da Tupperware Brands Corporation na nova máquina de lavar loiça e vão ver o filme.

E já agora, uma dúvida. Na época já havia comandos para o televisor?

jef, janeiro 2018.

«Suburbicon» de George Clooney. Com Matt Damon, Julianne Moore, Oscar Isaac, Glenn Fleshler, Megan Ferguson, Noah Jupe, Karimah Westbrook. Argumento: Joel e Ethan Coen / George Clooney / Grant Heslov. Fotografia: Robert Elswit; Música: Alexandre Desplat. Grã-Bretanha / EUA, 2017, Cores, 105 min.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Sobre o filme «Contratei um Assassino» de Aki Kaurismäki, 1990

















Neste curto filme fuma-se e bebe-se muito. Os sorrisos são sintomáticos, ligeiros e parcos, pontuando por vezes as cenas de paixão. As marcações de cena são tensas, as frases ditas, entrecortadas por silêncios dramáticos. Os cenários são verdadeiros cenários, a um passo de se desmoronar. Nada parece real mas tudo é verdadeiro. Marca indelével do realizador, assim como a sua comédia. Trágica e inteligente. Elegante.

Henri Boulanger (Jean-Pierre Léaud) é francês em Londres e, por isso, é mais facilmente despedido. Tenta o suicídio mas não é eficaz. Contrata alguém. Porém, enquanto o aguarda, enamora-se por uma vendedeira nocturna de rosas, Margaret (Margi Clarke). E o amor salva-los-á.

Como se Kaurismäki convocasse Bartleby (Melville) e o cruzasse com Buster (Keaton) e, depois, o entregasse aos movimentos cronométricos de Bausch (Pina) e às palavras sopesadas de Beckett (Samuel).

Entretanto, ficamos a ouvir «Afro-Cuban Be Bop» de Joe Strummer and The Astro-Physicians.

jef, janeiro 2018


«Contratei um Assassino» (I Hired a Contract Killer) de Aki Kaurismäki. Com Jean-Pierre Léaud, Margi Clarke, Kenneth Colley, Angela Wals, Nicky Tesco, Charles Cork, Michael O’Hagan, Walter Sparrow, Joe Strummer, Serge Reggeanni. Finlândia / Grã-Bretanha / Alemanha / Suécia, 1990, Cores, 76 min.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Sobre o filme «O Amante de Um Dia» de Philippe Garrel, 2017















O exercício que Philippe Garrel faz com este filme é um exercício de simplificação. Um exercício que tem vindo a aprofundar e que ficou muito explícito em «À Sombra das Mulheres» (2015) ou «Ciúme» (2013).

Gilles (Éric Caravaca) é professor de filosofia e namora há pouco tempo com Ariane (Louise Chevillotte), sua aluna. Uma noite, bate à porta a filha Jeanne (Esther Garrel) que, sem saber muito bem como, saiu com a mala de casa do namorado. Ariane e Jeanne têm 23 anos.

A fotografia é a preto e branco (Renato Berta) e, delicadamente, mostra espaços enclausurados, paredes riscadas, escadas velhas, estantes atravancadas. Ruas vazias. Uma janela aberta, uma tentativa de suicídio. Talvez seja o primeiro segredo a unir um trio que nunca se abandona mas que vai ficando entre aquilo que não vê mas o espectador observa. Até que o olhar de Gilles se sobrepõe ao do espectador.

Se algo fica por esclarecer, uma bela voz-off retira a dúvida. O genérico só aparece na sequência das primeiras cenas. Também o tema musical (Jean-Louis Aubert). A cumplicidade deve manter-se mesmo que as personagens se afastem. E a vida prossegue. Como um jogo sem muito sentido aparente. Philippe Garrel torna o espectador cúmplice dos jogadores que não permitem qualquer maldade, apenas seguem os trâmites da vida e do amor.

E o amor é demasiado simples para ser explicado pela filosofia. Assim começa, assim termina. Assim também pode recomeçar.

jef, janeiro 2018.


«O Amante de Um Dia» (L'amant d'un Jour) de Philippe Garrel. Com Éric Caravaca, Esther Garrel, Louise Chevillotte. França, 2017, P/B, 76 min.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Sobre o filme «Barbara» de Mathieu Amalric, 2017
















O mais atraente neste filme não será tanto ser um filme sobre um filme. De «Oito e Meio» de Fellini (1963) a «A Noite Americana» de Truffaut (1973), «O Estado das Coisas» de Wenders (1982) ou «Road to Nowhere - Sem Destino» de Monte Hellman (2011), todos os grandes realizadores foram aliciados por essa, digamos, «crise de identidade» ou «cine-autobiografia».

O melhor do filme de Mathieu Amalric, irrequieto personagem que nunca sabe se quer estar à frente ou por detrás das câmaras; na frente do plateau ou sobre o palco; a realizar ou a actuar; dentro do comércio cinéfilo de Hollywood ou a esgrimir contra ele; o melhor deste filme é, exactamente, esse meio-termo ultra sensível que coloca uma extraordinária Jeanne Balibar (Brigitte) a transformar-se, em duplo papel, em Barbara, e esta Barbara que nunca sabemos se está a voltar à génese da criação dramática da inicial Jeanne Balibar a retomar o papel de Brigitte.

Mathieu Amalric representa o papel do realizador Yves que também anda baralhado, entre a personagem, bela, exótica, intrigante, da cantora francesa, e a visível cumplicidade da sua ex-mulher Jeanne Balibar. Os grandes planos e as grandes canções, as palavras sentidas pela geração de ouro da Canção Francesa, deixam Yves num estado de deslumbramento aparvalhado, embasbacado, um realizador que não controla a ficção e a narrativa documental. 

Afinal, Amalric sabe como contar uma história sem tentar desfazer-lhe os enigmas com truques baratos de conto de fadas.

Ao sair do filme, também eu me senti baralhado, mas também hipnotizado, comovido, por tão obscura personagem. Encantado pelo jeito de um realizador em terminar uma filme sem o massacrar com conclusões académicas.

jef, janeiro 2018

«Barbara» de Mathieu Amalric. Com Jeanne Balibar, Mathieu Amalric, Vincent Peirani, Fanny Imber, Aurore Clement, Grégoire Colin. França, 2017, Cores, 97 min.