quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sobre o disco «The Night Is Young» The 2 Bears, Southern Fried Record 2014


















Na realidade, a música não é uma ciência, muito menos a música «de dança» (haverá música impedida teoricamente de fazer dançar?). E a «música de dança» deve ser tudo menos científica, dogmática, académica, conclusiva.

«The Night Is Young» teria tudo para não dar certo: intuitivamente fora de moda, melodicamente antiquada quase infantil quase tola, no género descentrada por sexualmente integradora. Politicamente correcta, socialmente consciente, alegremente amigável. Descaradamente amorosa, divertida, universal. À antiga. À velha Londres.

«Love is lovely / War is ugly»! Nada mais simples.

Na sequência natural do extraordinário álbum de 2012 «Be Strong» (este ainda mais ‘démodé’, temo dizer), The 2 Bears (Joe Goddard, Raf Rundell) permanecem na lateralidade, são ambidestros, desejam o centro da pista.
E como devemos proceder quando nos encontramos no meio da pista de dança?
«The Night Is Young» teria tudo para errar. Porém, acerta.

Let it free your Body & Soul! Move your bones and have fun and conscience!

jef, Outubro 2014

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Bairro












Um bairro que se preze…
um bairro para ser bairro
tem de ter as janelas próximas
os azulejos a reflectir nos azulejos
as vozes
dos gatos e dos canários
a cirandar na corda da roupa da frente
varanda com varanda
sardinha a enjoar e nesga de sol.
Sem a invasão da privacidade
a intimidade desaparece
o rádio do lado cala-se
a palavra dita não é escutada
as pessoas fogem
as casas caem
o bairro desmorona-se.

jef, agosto 2017

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Sobre o filme «Ladrões de Bicicletas» de Vittorio De Sica, 1948.














Ao Domingo chove sempre!
Diz, desanimado, o amigo a Antonio (Lamberto Maggiorani) enquanto o ajuda a procurar partes da sua Fides entre os milhares de bicicletas que se revendem no mercado. Ao filho, Bruno (Enzo Staiola), fica a tarefa de espreitar bombas e campainhas.
O título diz tudo. Antonio precisa da sua bicicleta senão perde o emprego. Nada mais necessário. Nada mais simples. A história é essa. Apenas essa.

As cenas de multidão apressada circulando numa cidade podre e pobre lembram vagamente as de «Couraçado Potemkine» de Serguei Eisenstein (1925). As cenas de solidão e desespero lembram «O Garoto de Charlot» de Charlie Chaplin (1921). Mas já lá vão os anos 20. Estamos em 1948 e a cidade move-se sobre os escombros socias do pós-guerra. É preciso valer os novos modos de filmar.
E, quase sem orçamento e com enorme esforço do realizador, este filme torna-se símbolo, mito, exemplo, razão e coração, para uma legião de espectadores de um certo neo-realismo! Há que mudar empenhadamente a Arte para que a Sociedade mude!

Mas «Ladrões de Bicicletas», que se inicia com uma pungente ida à loja de penhores para reaver a bicicleta por troca com uma trouxa de lençóis, colocada no topo da impressionante pilha de outros haveres penhorados, afinal e acima de tudo, é um filme sobre a comunhão amorosa de um filho miúdo e determinado e de um pai a circular sem norte no interior do desespero. Quem protege quem? Quem precisa de quem? Não é a mão pequenina que vai no final segurar a mão maior e desistente? A mão que antes bateu mas que depois procura desvairada por um miúdo que poderá ter-se afogado.
E o famoso interregno no desvario, essa cena fora de cena, no restaurante onde só há dinheiro para pão com queijo mas onde há lugar ainda para confidências e sorrisos…
E o imenso conjunto de não actores, quase mascarados quase palhaços, ridículos, divertidos, a envolver de comédia o pânico de António, valorizando-o, circulando circense em torno da tragédia, reinventado o dia seguinte, não será prova fundamental de um expressionismo artístico que faz guindar o filme a um estatuto que há muito escapou do léxico parco e malquisto dos críticos do Neo-Realismo.

«Ladrões de Bicicletas» é um aviso importante. Um aviso de que a Arte é eterna quando preenche esse modo comovente de sublinhar a consciência e a estética.

jef, agosto 2017

«Ladrões de Bicicletas» (Ladri di biciclette) de Vittorio De Sica. Com Lamberto Maggiorani , Enzo Staiola, Lianella Carell, Giulio Chiari, Vittorio Antonucci, Elena Altieri, Michele Sakara, Eolo Capritti . Segundo o romance de Luigi Bartolini. Música: Alessandro Cicognini. Fotografia: Carlo Montuori. Itália, 1948, P/B, 89 min.

Partir


Somos donos de ninguém,
muito menos do tempo.

Quem quiser pode partir,
é livre.
A porta está sempre aberta.

Já o regresso será mais difícil.
Nessa altura, o tempo será outro…
A porta encontrar-se-á
num lugar desconhecido.

O tempo desloca o espaço, as portas
e os restantes meteoros.


jef, agosto 2017

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sobre o filme «Atomic Blonde - Agente Especial» de David Leitch, 2017


















Esqueçam James Bond! Ignorem Jason Bourne! Pobres homenzinhos!
Eis que o MI6 contrata Lorraine Broughton: a Mulher! Determinada, implacável, fatal! Linda! E tal como nas novelas de espionagem, nos filmes de animação ou na banda desenhada de onde a heroína sai («The Coldest City» de Antony Johnston & Sam Hart), a agente secreta nunca morre por mais porrada que leve ou sofra.
Estamos em Berlim no final de 1989, de um e de outro lado do muro, alguns momentos antes alguns momentos depois do seu derrube.
Entrecruzado por flashbacks, o realizador coloca-nos dentro do interrogatório envidraçado de Atomic Blonde para que os seus dirigentes entendam quem é agente duplo, espião triplo, traidor, russo, alemão, inglês, francês. Claro que não percebem tantas são as reviravoltas do argumento, tanto o Vodka on ice bebido de um trago, tantos os cigarros sorvidos até ao filtro.
Mas Charlize Theron é realmente uma actriz soberba e de uma beleza inesquecível. Se não a esquecemos em «Monstro» (2003) de Patty Jenkins, «Terra Fria» (2005) de Niki Caro ou mesmo em «Mad Max – Estrada da Fúria» (2015) de George Miller, também não a esqueceremos como Lorraine Broughton. Charlize Theron encarna esta agente que maltrata brutamontes de todas as latitudes como encarnou os outros papéis, entregando-lhes o corpo, a alma, o sangue, o cérebro e os músculos. E quanta escatologia existe neste filme de acção…
E temos a paisagem pintada a cinzento brilhante e uma cidade de Berlim em tons de passado mal tratado.
Temos a tela rasgada onde vai passando «Stalker» de Andrei Tarkovky. 
Temos a banda sonora com temas «vintage» da época.
Temos uma cena nas escadas e patamares de um prédio verdadeiramente única.
Temos carros maravilhosos acabando infelizmente muitos deles na sucata.
Temos o guarda-roupa e os adereços.
Mas temos acima de tudo Charlize Theron, a bela.

Viva Charlize Theron!

jef, agosto 2017

Sobre o filme «Atomic Blonde - Agente Especial” de David Leitch, David “Atomic Blonde). Charlize Theron, Sofia Boutella, James McAvoy, John Goodman, Til Schweiger, Eddie Marsan e Toby Jones. EUA, 2017, Cores, 115 min.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sobre o filme «A Vida de Uma Mulher» de Stéphane Brizé, 2016















Em 2015, de Stéphane Brizé, tinha-nos chegado «A Lei do Mercado», essa composição fechada sobre o individuo que se vê manietado, agredido, pela fúria económica da sociedade. Assim, a mesma sociedade, cento e tal anos antes, vem enclausurar Jeanne (Judith Chemla) em «A Vida de Uma Mulher». O mesmo realismo, a mesma opressão, neste caso, a resignação de uma mulher que tenta a todo o custo preservar a imagem de uma felicidade adolescente que ficou encerrada três décadas antes.

A bela Normandia, a folhagem do belo arvoredo, ficam de fora dos enquadramentos. Estão de volta os planos fechados sobre a figura delicada de Jeanne que se afasta lentamente da suavidade alegre e despreocupada da juventude. O realizador avisa que a história teve um início feliz, em alegres e ensolaradas analepses (os tais flashbacks), mas que o fim será sombrio, insistindo em toldar o futuro com sombrias prolepses (digamos, flashforwards). Avisos estes que se sobrepõem às palavras do romance inicial de Guy de Maupassant.

A criação aristocrática de Jeanne por Judith Chemla pode ser comparada a Vincent Lindon em «A Lei do Mercado», tal o expressionismo corporal dos actores ultrapassando bem o rigor do close-up. Mais nada interessa que o realismo romântico da tristeza ditado pelo inclinar da nuca ou pelo tactear instável dos dedos no tampo de uma mesa.

A beleza do movimento, da textura do tecido, do cravo tocado em fundo quando se ouvem passos, o ladrar dos cães ou o relógio, em primeiro plano, descrevem a deliberada aproximação do espectador aos objectos desejada pelo realizador.

Um bom exercício de estilo, estética e moralidade, será confrontar «A Vida de Uma Mulher» com o mais recente filme «Lady Macbeth» de William Oldroyd (2017).

jef, agosto 2017

Sobre o filme «A Vida de Uma Mulher» (Une Vie) de Stéphane Brizé. Com Judith Chemla, Jean-Pierre Darroussin, Yolande Moreau, Olivier Perrier, Swann Arlaud, Clotilde Hesme, Nina Meurisse, Alain Beigel, Jalil Lespert. Sobre o romance de Guy de Maupassant. Bélgica / França,  2016, Cores, 119 min.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Imersão



Cuidado!
Não meta o pé na banheira!
A água escalda e está muito turva.
Quantos serão os seres vivos que nela espreitam?

Pegajoso! O pensamento anda muito pegajoso, desliza incólume na turbidez clástica do sabão e vai deixando um vinco amarelo na felicidade do esmalte.
O sarro da sobrevivência!
Os pêlos do tédio rodam na acumulação da espera. No ralo escondido é que reside a perspectiva do futuro,
mas o presente fica pela válvula suja que o prende.

Um fastio!


jef, agosto 2017